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Já faz mais de duzentos anos que Balzac escreveu Ilusões Perdidas, que retrata a ascensão e queda de Lucien de Rubempré, um jovem poeta provinciano que busca sucesso em Paris e se depara com a corrupção moral e a hipocrisia do jornalismo e da sociedade. É um retrato implacável do custo de se vender por fama. A alegoria de Balzac cabe bem para abrir esta reportagem sobre as demissões na imprensa potiguar recentemente.
Mais de dois séculos depois, a última quadra da província que se convencionou chamar de Fazenda Iluminada foi agitada. Quatro recentes demissões, três veículos, uma mesma suspeita lançada no ar: perseguição política. No noticiário potiguar, abril terminou sob o signo das entrelinhas — com jornalistas perdendo seus postos e especulações ganhando manchetes. Saíram Bruno Barreto, da TV Ponta Negra; Tiago Rebolo, da 98 FM; e Hugo Vieira e Ediana Miralha, da TV Tropical. Desses, apenas a saída de Ediana não ganhou conotações políticas.
As suspeitas de perseguição são reflexo dos tempos atuais, mas vieram reforçadas pelos eventos de fevereiro, quando o jornalista Heitor Gregório foi convidado por Flávio Azevedo, controlador da Tribuna do Norte, a fazer suas críticas contra o prefeito de Natal, Paulinho Freire, noutro ambiente. O episódio levou Henrique Eduardo Alves a renunciar a presidência do jornal.
O caldo entornado na polarização inspirou a deputada estadual Isolda Dantas (PT) a tirar o assunto da bolha do mercado de comunicação e propor uma audiência pública na Assembleia Legislativa para, como disse em seu Instagram, “debater os fatos impressionantes que estão acontecendo no Rio Grande do Norte por quatro jornalistas terem sido demitidos por suas posições políticas”.
Quando todo mundo tem uma versão e ninguém quer assinar a autoria, resta ao repórter o que sempre coube a ele: ouvir, cruzar e narrar.
O elogio e a narrativa entremeados nas demissões na imprensa potiguar
A demissão de Hugo Vieira na TV Tropical foi a única que extravasou os corredores das redações. A versão que circulou: ele teria sido afastado após elogiar a governadora Fátima Bezerra. Em plena TV controlada por José Agripino Maia, cacique da direita potiguar, o gesto teria soado — para alguns — como insubordinação ideológica. O boato se alastrou feito rastilho. Em tempos de polarização digital, a linha entre cortesia institucional e provocação política é tênue. E Hugo foi empurrado para o centro dessa tensão.
Ao Blog do Dina, ele afirmou que a saída foi amistosa, sem conflito, e que jamais recebeu justificativas políticas. “Sempre fui bem tratado. A saída foi civilizada”, declarou.
Fontes ligadas à Tropical indicam que o desligamento ocorreu por decisão de reestruturação interna e narraram mal comportamento de Hugo. À nossa reportagem ele se disse surpreso com essas declarações. E numa análise cirúrgica, lembrou que o cenário atual do jornalismo é de pressões até mesmo em veículos renomadíssimos como o The Washington Post, que quebrou a tradição de declarar apoio ao presidenciável da eleição de seu país – o faria em favor de Kamala Harris.
Mas os interesses econômicos de Jeff Bezos, dono da Amazon e do Post, falaram mais alto.
Em Washington DC ou na Fazenda Iluminada, jornalismo é, antes de jornalismo, um instrumento econômico.
Procurado para comentar a demissão de Hugo, o ex-senador José Agripino Maia, que controla a emissora, foi taxativo: “Razão política, zero. Nem sabia que ele tinha sido desligado. Isso não passou por mim. Foi coisa de gestão”. Agripino dá expediente na Tropical quase todos os dias, onde atende agenda política.
Mas o senador afirma que sabe separar seu posicionamento político do negócio que é a TV Tropical. Se o anúncio do Governo do Estado em março na Tv Tropical forem os mesmos dos meses anteriores e subsequentes, a TV Tropical embolsa todos os meses seis dígitos em publicidade.
O Blog do Dina pegou uma amostra aleatória de 5 edições do Balanço Geral (matutino e verpertino), um dos principais jornalísticos da emissora, e submeteu a transcrição dos programa a análise de viés. Foram 2 minutos e 10 segundos de material favorável à gestão Fátima Bezerra contra 1 minutos e 15 segundos de comentários negativos.
No total, as peças publicitárias do governo estão espalhadas nos intervalos de 11 programas. Elas servem muito mais para anunciar o que o governo está fazendo. Mas como jornalismo virou instrumento econômico há um pacto silencioso de tratar bem anunciante.
Morreu a frase de Luiz Maria Alves que encimava a parede da redação do Novo Jornal, sob Cassiano Arruda Câmara, segundo a qual “Jornal não é guardião da honra de ninguém”.
O ruído e a ruptura
Na 98 FM, as labaredas costumam acontecer no programa 12 Em Ponto, mas foi no Repórter 98 que a deterioração da relação entre Tiago Rebolo e Geórgia Nery ficou evidente, na edição de 29 de abril:
Após o programa, Nery, Rebolo e Felinto, proprietário da emissora e apresentador do programa, se reuniram. Como escreveu Balzac em Ilusões Perdidas, “A província é um palco apertado: todo mundo se conhece, e os bastidores sempre vazam.”
Fontes próximas a Tiago Rebolo relatam que o desgaste vinha se acumulando muito antes do episódio final. A convivência com a colega de bancada, Geórgia Nery, era descrita como “delicada” e cheia de insinuações cruzadas — algumas públicas, outras veladas. A desavença, que explodiu ao vivo, teria sido apenas o estopim de um histórico mal resolvido.
De acordo com pessoas próximas ao jornalista, na conversa após o programa ele foi informado de que deixaria a bancada, mas seguiria na emissora em outra função. Recusou. Disse que, fora do ar, não havia mais ambiente para continuar. Pediu desligamento total.
Ainda segundo esses relatos, Rebolo sustentava a convicção de que a decisão final não foi apenas editorial. Viu ali a consolidação de um movimento que, na sua percepção, já vinha sendo gestado: o de sua exclusão. Atribuiu a Geórgia Nery a iniciativa de pressionar por sua saída, com alegações que cruzavam o limite entre a crítica profissional e a suspeita de alinhamento político com o governo estadual.
Do outro lado da história, fontes próximas à direção da 98 FM sustentam outra versão. Segundo esses relatos, a decisão de afastar Rebolo da bancada partiu unicamente de uma avaliação interna: ele teria quebrado protocolos considerados essenciais para a condução do programa. Tais protocolos em português bem dito: Felinto encerrou o debate e Rebolo retomou a questão. Mas o vídeo mostra que a retomada do assunto começou por Geórgia.
O que pesou contra Rebolo foi o que aconteceu depois, em conversa entre Felinto ele e Géorgia. Na sala da direção, os ânimos se exaltaram ainda mais, com atribuição de peso maior sobre Rebolo, que saiu da reunião, segundo as fontes ouvidas pelo blog, com a pecha de “deselegante” e “desagregador”. Ao mesmo tempo, por outro lado, tais fontes o descrevem como brilhante e inteligente.
Os três foram procurados para comentar essa reportagem, mas não quiseram falar. Como havia uma acusação contra Geórgia, insisti com Felinto, que cedeu em falar uma única coisa: “Ela nunca pediu a cabeça dele nem de ninguém porque isso jamais aconteceria. Não é o ambiente que temos. Isso não aconteceu”.
A 98 FM tem um faturamento de mídia com o governo do RN de 5 dígitos e uma relação tida como amistosa, o suficiente para que, se o governo quisesse, intervisse pedindo em favor de Rebolo. Nenhum secretário de comunicação que senta na cadeira que gere o orçamento de publicidade, no entanto, ousa fazer pedidos a donos de veículos quando sabe que as motivações não foram políticas.
O tom e a punição

A redação da TV Ponta Negra é um grande aquário com paredes de vidro. Impossível não ver o que se passa ali. Dias antes do episódio na 98 FM, a jornalista Micarla de Sousa encerrou o Jornal do Dia, saiu do estúdio e foi à porta da gerente de jornalismo, Angélica Hipólito, a quem perguntou estupefata: “Você viu o que acabou de acontecer?”
Momentos antes, Micarla dividia a participação no programa com Walter Fonseca e Bruno Barreto e perguntava sobre a candidatura de Cadu Xavier ao Governo do Estado. Bruno Barreto pincelou o assunto e passou o foco para Mossoró, chamando o prefeito Allyson Bezerra de “mentiroso” e que seu blog era o único de oposição à gestão municipal da segunda maior cidade do estado.
Desde que o grupo Hapvida devolveu a TV Ponta Negra à família Sousa, ela passa por uma reestruturação que atualmente está na fase da implantação de valores e missão da tv, conforme narrou um jornalista da casa. Em linhas gerais tais arquétipos se resumem a: é uma tv cristã, comprometida em apoiar famílias e de respeitar pessoas. Bruno teria quebrado esse último mandamento. “Para chamar alguém de mentiroso, você precisa fazer o apontamento objetivo e trazer as provas de que é mentira. Isso não pode ser feito com viés pessoal como foi”, afirmou ao blog um dos jornalistas da emissora que testemunhou os eventos daquele dia.
O que mais irritou os profissionais da TV Ponta Negra, no entanto, foi a nota do Sindjorn sobre a saída de Barreto. “Se fosse Gustavo Negreiros chamando Fátima de mentirosa teria havido o mesmo desligamento. Mas o Sindjorn soltaria uma nota de repúdio?”, provocou uma das fontes. “Esse lugar é um dos que mais emprega jornalistas profissionais. Aquela nota foi acintosa”, indignou-se.
O Blog do Dina pegou os últimos 5 programas do Jornal do Dia e submeteu à mesma análise da TV Tropical. Em 3 deles, não há menção à gestão de Fátima Bezerra. Em dois, as menções que existem são positivas e somam quase 2 minutos.
“Mentir pode. Chamar de mentiroso, não”
O desligamento de Bruno Barreto da TV Ponta Negra veio embalado no papel fino da moral editorial. Internamente, falou-se na quebra de um dos “três mandamentos” da emissora, quando Bruno pecou por chamar o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, de “mentiroso” — ao vivo.
Bruno não contesta a palavra. Reafirma. E dobra a aposta.
“Eu reafirmo que ele é mentiroso. E mostrei por que ele mente. Enumerei as mentiras. A gente precisa chamar mentira de mentira. Está se mentindo muito nesse estado, nesse país”, disse ao Blog do Dina.
Na quarta-feira, dia da fala, não houve bronca. Ao final do programa, Micarla até brincou com ele, narrou-me Bruno, que também contesta ter desviado o foco para Allyson já que o tema em questão eram os potenciais candidatos a governador em 2026, e o prefeito de Mossoró é um deles.
Ainda na quarta, Bruno afirma que a produtora do programa Márcia Melo, entrou em contato de maneira cordial para pedir que ele minimizasse nas adjetivações. Mas dois dias depois veio o comunicado de suspensão.
“Não tenho idade para ser suspenso. Isso se faz com criança. Tenho 22 anos de jornalismo. Sou pai. Saí por não aceitar a suspensão”, afirmou.
Bruno relata que, na mesma sexta-feira, o prefeito de Mossoró estava em Natal. “Cumprindo agenda” — inclusive, com José Agripino Maia na TV Tropical. “Não sei se ele foi à Ponta Negra, mas é muita coincidência. Dois dias depois da minha fala, me suspendem. Isso não foi por acaso”, disse.
O que incomodou, segundo ele, não foi o tom — mas o alvo.
“Walter Fonseca ataca Lula toda semana. Nunca foi suspenso. Eu chamei Allyson de mentiroso e fui. Mentir pode. Chamar de mentiroso, não.”
Procurei Micarla de Sousa para comentar esta reportagem, mas ela alegou estar em agenda pessoal e não gostaria de se manifestar. Insisti, assim como no caso de Felinto, se houve um pedido do prefeito de Mossoró para Bruno ser afastado: “Nunca. Dinarte, pelo amor de Deus, qual o poder que o prefeito de Mossoró tem sobre uma TV em Natal? Isso não aconteceu”, afirmou.
O 4º Poder Como Extensão dos Demais
Mais de 12 anos atrás, eu estava em uma apuração que era um grande escândalo e reportei meus apanhados à chefia de reportagem, que reportou ao dono do veículo. Ele me chamou à sua sala e perguntou: “Essa é a única cópia?”. Menti e disse que sim. Algo me soava estranho na movimentação em torno daquele material e fiz uma cópia extra.
Momentos depois daquela conversa, o então chefe de comunicação de um ente público entrava na redação do veículo e foi direto para a sala do dono. Quando ele se foi, me foi dada a ordem: esqueça esse assunto. No dia seguinte, a gestão em questão estava anunciando no veículo.
Foi ali que aprendi sobre as Ilusões Perdidas de Balzac. Pois, como disse ele em sua obra: “A província é como um palco onde as máscaras não se sustentam por muito tempo. Lá, as tramas da vaidade e da política se cruzam com a vida comum, até que alguém paga a conta.” Naquele dia, a conta foi minha. A do dono do veículo foi que ficou cheia.
A convocação de uma audiência pública pela deputada estadual Isolda Dantas para apurar “perseguições políticas” reacendeu a polarização em torno das demissões. Veículos de comunicação passaram a ser pressionados a se posicionar. Executivos ouvidos sob reserva apontam um ambiente de tensão: há quem diga que as acusações públicas já afetam até processos seletivos.
Uma dúvida que paira no ar é se a audiência convocada pela deputada Isolda Dantas discutirá a exigência de demissão que partiu do Governo do Estado contra a 93 FM, de Mossoró, para que Gustavo Negreiros fosse afastado, o que acabou acontecendo por razões econômicas.
O cenário atual é de tensão, como me resumiu um executivo: “Hoje, dono de veículo pensa duas vezes antes de contratar alguém mais à esquerda. Não pelo que pensa, pois necessário o contraponto, mas pelo que pode gerar de desgaste se for demitido depois. Estamos falando de desligamentos que não tiveram conotações políticas, mas foram embalados nessa narrativa”, garante.
O problema estrutural
No fundo, o que está em disputa não são apenas cargos ou espaços de fala. É o próprio pacto entre jornalismo e política que mostra sinais de erosão. A dependência estrutural da mídia local em relação aos anúncios governamentais, como lembrou Hugo, torna a autonomia das redações um exercício frágil — e, às vezes, ilusório. “Acredito que você passa por isso na 96, Dinarte”, teorizou.
Com efeito, passo. Mas todas as censuras que me ocorreram na 96 foram autoimpostas. Erro que tenho procurado não repetir.
Enquanto isso, cada demissão vira símbolo. E toda explicação — técnica, comportamental ou estratégica — soa, inevitavelmente, como desculpa.
As emissoras negam retaliações. Os demitidos, com mais ou menos ênfase, evitaram ampliar o conflito. E nos bastidores, uma certeza se impõe: não foi apenas gente que saiu do ar. Saiu também um pouco da ideia — talvez romântica — de que é possível separar jornalismo e política num estado onde os donos de microfone e de concessão são, muitas vezes, os mesmos.
A audiência convocada pela deputada Isolda Dantas haverá de confirmar o enredo de Ilusões Perdidas. Deixei minha frase preferida desse livro para o final: “Na província, ninguém se mata: assassina-se a reputação.”
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