A Polícia Federal deflagrou a Operação Mederi investigando um suposto esquema de corrupção na saúde de Mossoró, tendo como pivô a empresa Dismed. Diálogos captados pelos investigadores revelam que Oseas Monthalggan, sócio da farmacêutica, teria detalhado o pagamento de propina ao prefeito Allyson Bezerra, informou Fausto Macedo, no Estadao.
Em um dos áudios, o empresário condiciona o pagamento de R$ 100 mil ao prefeito à liberação de uma ordem de compra de R$ 400 mil. Bezerra, alvo de buscas nesta terça-feira, declarou em nota que franqueou acesso a todas as informações solicitadas pelas autoridades.

Em gravação de maio de 2025, o empresário Oseas Monthalggan detalha o que chama de “matemática de Mossoró” para explicar a divisão de verbas em contratos públicos. No áudio, ele descreve uma ordem de compra de R$ 400 mil, onde, após os custos e manobras de entrega, restariam R$ 130 mil.
Deste montante, segundo Oseas, R$ 100 mil seriam destinados ao pagamento de propinas: “temos que pagar cem mil a Allyson e a Fátima”, afirma, citando percentuais de 15% e 10%, respectivamente. Ao final, o empresário reclama que sobrariam apenas R$ 30 mil para a empresa. Oseas foi alvo de busca e apreensão nesta terça-feira. O Estadão tentou contato com sua defesa, mas não obteve retorno até o momento.

Topo do esquema
ara a Polícia Federal, o prefeito de Mossoró e seu vice, Marcos Bezerra (PSD), ocupavam o “topo do esquema” de corrupção. As investigações apontam que a dupla recebia propinas calculadas em “porcentuais definidos” sobre os contratos firmados com a empresa Dismed.
O relatório policial destaca que, nas conversas interceptadas, “há referências nominais específicas” tanto a Allyson quanto a Marcos, vinculando-os diretamente ao recebimento dos valores ilícitos. Marcos Bezerra também foi alvo de mandados de busca e apreensão na Operação Mederi. O Estadão tenta contato com a defesa do vice-prefeito e mantém o espaço aberto para manifestações.

A investigação descreve uma hierarquia criminosa dividida em três níveis: o intermediário, formado por gestores administrativos que davam suporte institucional; o operacional, composto por fiscais que atestavam falsamente o recebimento de remédios; e o núcleo privado, onde empresários executavam as fraudes externamente.
Baseado em relatórios da CGU que apontam a liderança do “alto escalão” das prefeituras nessas práticas, o desembargador Rogério Fialho Moreira (TRF5) autorizou a operação. Nesta terça-feira (27), a Polícia Federal cumpriu 35 mandados de busca e apreensão no Rio Grande do Norte, mirando três empresas e 15 servidores — incluindo secretários e pregoeiros — em cinco cidades: Serra do Mel, Mossoró, Paraú, São Miguel e José da Penha. Para os investigadores, a participação desses servidores era indispensável para o funcionamento desta “estrutura sistemática de desvio de recursos públicos”.
‘Quinze do homem’
Para a PF, a referência ao pagamento de 15% em favor do prefeito de Mossoró também aparece em outra escuta ambiental nas dependências da Dismed, quando o empresário Oseas discute como seria feita a divisão de valores.
“Quinze do homem e dez disso aí, vezes vinte e cinco por cento”, disse o dono da Dismed.
“O contexto geral destas conversas parece deixar claro que “o homem” ali referido é Allyson, prefeito de Mossoró, sendo esta uma forma de identificação indireta”, conclui a PF na investigação.
Os federais também indicam que, além das referências diretas ao recebimento de valores pelo prefeito, “há um elemento que sugere consciência da ilicitude por parte” de Allyson.

“O problema porque é o seguinte: os cara… se eu fosse prefeito, meus funcionários por exemplo… ah, esse prefeito é ladrão, quem rouba é ele, pode falar, não me importa não! Aí os cara é um cuidado, não porque ninguém pode saber não”, disse Oseas na ocasião.
Os investigadores apontam que a declaração do empresário comprova o ‘tom cauteloso’ adotado pelo prefeito ao receber as propinas.
“Os interlocutores percebem no prefeito um comportamento cauteloso voltado a manter oculta sua participação nos esquemas discutidos, o que seria indicativo de conhecimento da irregularidade das práticas”, diz a investigação.
COM A PALAVRA, O PREFEITO DE MOSSORÓ, ALLYSON BEZERRA
A defesa do prefeito Allyson Bezerra esclareceu que o mandado de busca e apreensão cumprido nesta terça-feira faz parte de uma investigação sobre contratos entre municípios e empresas farmacêuticas, não se tratando de uma apuração sobre a conduta pessoal do gestor. Segundo os advogados, a medida judicial baseou-se em diálogos de terceiros, sem apresentar fatos que vinculem o prefeito diretamente a irregularidades.
A nota destaca que a ação ocorreu em fase preliminar, sem qualquer juízo de culpa, e que Allyson Bezerra não sofreu restrições pessoais nem foi afastado do cargo. A defesa ressaltou a colaboração integral do prefeito com as autoridades e lembrou que, desde dezembro de 2023, a gestão municipal já havia instituído o sistema Hórus (Decreto nº 6.994/2023) para dar mais transparência ao controle de medicamentos. O prefeito segue exercendo suas funções normalmente.
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