O Governo do Rio Grande do Norte confirmou nesta terça-feira (5) que vai parcelar em seis vezes o retroativo de abril do reajuste de 4,26% concedido aos servidores estaduais e militares. O valor será diluído nas folhas de junho a novembro de 2026. Na folha de maio, o percentual cheio já está incorporado — mas o mês anterior, quando a lei já valia, ficou para trás.
A conta que não era para ser dela
Quando sancionou a Lei Complementar 777/2025, que instituiu a política de reajuste permanente, Fátima Bezerra operava com um cenário político diferente do atual. A expectativa era de que, a esta altura de 2026, ela já tivesse deixado o Palácio de Despachos para disputar o Senado, entregando o governo ao vice Walter Alves.
Walter, porém, decidiu pular do barco. Sem o vice disposto a assumir e com a conjuntura eleitoral redesenhada, Fátima permaneceu no comando — e agora precisa administrar, com o próprio caixa, o impacto fiscal de uma concessão que ela imaginava ser problema do sucessor.
Frustração de receitas como justificativa
A nota oficial do governo cita frustração de receitas e oscilações na arrecadação como razões para não pagar o retroativo de uma vez. A decisão foi comunicada pelo Comitê Gestor de Eficiência do Estado diretamente aos sindicatos e associações de servidores.
Na prática, o Estado reconhece que não tem fôlego de caixa para honrar integralmente um compromisso que ele próprio criou por lei. O parcelamento em seis vezes transforma o que deveria ser um pagamento pontual numa obrigação que se arrasta até novembro — mês seguinte ao primeiro turno das eleições.
O que isso significa para o servidor
- Maio em diante: remuneração já incorpora os 4,26%.
- Retroativo de abril: dividido em seis parcelas iguais, de junho a novembro.
- Impacto real: quem esperava o valor cheio no contracheque de maio vai receber apenas uma fração do retroativo a partir de junho.
Para um servidor com remuneração de R$ 5 mil, por exemplo, o retroativo de abril gira em torno de R$ 213. Parcelado em seis vezes, são pouco mais de R$ 35 por mês — valor que mal cobre uma conta de aplicativo de transporte.
O contexto político
Fátima se vende como a governadora que nunca atrasou salário e que instituiu política salarial permanente. O parcelamento do retroativo não é tecnicamente um atraso — é um diferimento autorizado pelo próprio Executivo. Mas a narrativa de valorização do servidor perde força quando o Estado precisa fatiar em meia dúzia de parcelas um valor que, para a maioria dos contracheques, já não é grande coisa.
O episódio expõe uma ironia que a governadora não planejou viver: a conta era para ser de outro, mas o outro foi embora antes da hora. Agora, o pepino é dela.
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