No São João mais caro do RN, Wesley Safadão recebeu R$ 1,1 milhão para tocar na Estação das Artes, em Mossoró. Na mesma temporada, recebeu exatamente R$ 1,1 milhão para tocar na FINECAP, em Pau dos Ferros. O mesmo cachê. A mesma cifra milionária. Dois municípios com realidades orçamentárias que não se comparam e um cenário que não vai se repetir se depender do órgãos de controle do Estado.
Esse dado isolado já seria suficiente para justificar uma conversa séria sobre os gastos públicos com festejos no Rio Grande do Norte. Mas ele é apenas a porta de entrada.
Em 2025, os municípios potiguares gastaram R$ 192,3 milhões com shows — distribuídos em 2.363 contratos registrados no Painel Festejos do Tribunal de Contas do Estado. São números que colocam o RN no centro de um debate que já mobiliza Bahia, Pernambuco e Piauí: até onde vai a conta do São João?
O que muda sobre o São João mais caro do RN
Em março de 2026, o Ministério Público do RN, junto com o Ministério Público de Contas e a Secretaria de Controle Externo do TCE-RN, publicou a Nota Técnica Conjunta nº 01/2026. O documento toma os dados de 2025 como referência e fixa parâmetros para as contratações de 2026.
Nota Técnica Conjunta nº 01/2026
MPRN · MPCRN · SECEX/TCE-RN — Março de 2026O limite de atenção do RN — R$ 800 mil — é o mais alto entre os quatro estados que já se posicionaram. Para efeito de comparação: Pernambuco fixou R$ 350 mil, Piauí propôs R$ 400 mil, e a Bahia definiu R$ 700 mil. O que isso diz sobre o mercado potiguar é que os patamares praticados aqui já são mais altos que nos vizinhos — e que, portanto, a régua de controle também precisou ser calibrada para cima. Os números ilustram porque tivemos o São João mais caro.
A nota cita explicitamente que Mossoró concentrou seis das dez maiores contratações individuais do estado em 2025, e que Wesley Safadão foi o único artista a receber cachê de R$ 1,1 milhão em dois municípios diferentes.
Os números que ninguém esconde (mas poucos organizam)
Os dados estão todos em fontes oficiais: Diários Oficiais dos Municípios, Painel Festejos do TCE-RN, portais de transparência municipais. O problema nunca foi a falta de publicação — foi a ausência de alguém que organizasse esses números lado a lado.
Quando se faz isso, o retrato é este sobre o São João mais caro:
Os 10 maiores cachês do RN em 2025
Valores individuais pagos por municípios — todos os festejos públicos
A média por contrato no estado ficou em R$ 81.200. Parece razoável — até você perceber que 75% dos contratos ficaram abaixo de R$ 120 mil e que os 1% mais caros puxam a média para cima. São sete contratos acima de R$ 800 mil em todo o estado: Wesley Safadão aparece duas vezes, Luan Santana duas vezes, e Nattan, Simone Mendes e Ana Castela completam a lista.
O padrão é claro: um punhado de contratações milionárias no topo e uma base enorme de contratos modestos na base. É a estrutura de mercado que os órgãos de controle querem disciplinar.
O mapa do dinheiro: quem paga mais no RN
Quando se distribui o gasto total por município, Mossoró lidera com folga: R$ 25,7 milhões em shows ao longo de 2025. Natal aparece em segundo, com R$ 18,6 milhões. Mas o dado que chama atenção de verdade está abaixo deles.
Os 15 municípios que mais gastaram com shows
Total gasto em 2025 — todos os eventos (São João, Carnaval, Réveillon etc.)
Assú gastou R$ 7,6 milhões. Areia Branca, R$ 6 milhões. Ceará-Mirim, R$ 5,8 milhões. Serra do Mel — um município de 12 mil habitantes — desembolsou R$ 4,3 milhões. Grossos, com população ainda menor, R$ 3,5 milhões.
São municípios que, em muitos casos, comprometem parcela significativa de suas receitas próprias com uma única temporada de festejos. A pressão é sempre a mesma: artistas de projeção nacional cobram cachês padronizados, independentemente de onde tocam. O que muda é o peso que esse valor tem em cada orçamento.
Mossoró: a capital dos cachês do São João mais caro
Mossoró Cidade Junina é, de longe, o maior evento público do estado em volume de contratações artísticas. O total de cachês do MCJ 2025 superou R$ 20 milhões — e concentrou seis das dez maiores contratações individuais do RN naquele ano.
A Estação das Artes sozinha abrigou as atrações mais caras: Safadão (R$ 1,1 mi), Luan Santana (R$ 985 mil), Nattan (R$ 900 mil), Ana Castela (R$ 800-850 mil), Simone Mendes (R$ 800 mil), Bruno e Marrone (R$ 784 mil). O polo Pingo da Mei Dia operou como segundo palco de peso, com Xand Avião a R$ 700 mil e Léo Santana a R$ 600 mil.
Mossoró × Natal: o mesmo artista, dois palcos
Artistas que tocaram nas duas cidades em 2025 — cachês comparados
A comparação direta com Natal é reveladora. Vários artistas tocaram nas duas cidades com cachês idênticos ou muito próximos — Luan Santana (R$ 985 mil em ambas), Simone Mendes (R$ 800 mil em ambas), Projeto À Vontade (R$ 800 mil em ambas). O que diferencia é o volume: Mossoró contratou mais atrações e gastou mais no total, mesmo sendo uma cidade com metade da população da capital.
O artista potiguar na margem
Este talvez seja o dado mais eloquente de todo o levantamento.
O maior cachê pago a um artista potiguar em 2025 foi R$ 250 mil, da Banda Grafith — no Carnaval de Natal, nem sequer no São João. Esse valor representa 22,7% do que Wesley Safadão recebeu por uma única apresentação.
O abismo: artistas nacionais × potiguares
Maiores cachês individuais pagos em 2025 — o que cada mercado vale no RN
A desproporção se agrava com um fato específico: a Prefeitura de Natal lançou edital de R$ 192,5 mil para bandas locais no São João da Arena das Dunas — e cancelou o edital um dia após a publicação, sem apresentar justificativa oficial. Nenhum artista potiguar integrou a programação do polo principal.
O resultado é que o maior palco do São João da capital do estado foi inteiramente ocupado por atrações de fora do RN. Grafith, Cavaleiros do Forró, Ferro na Boneca, Circuito Musical, Noda de Caju — bandas com décadas de estrada e público consolidado — ficaram nos polos menores ou em outros municípios.
A Banda Grafith, aliás, foi o artista mais contratado do estado em 2025, com mais de 50 contratos. Tocou em praticamente todo canto do RN. Mas seu maior cachê individual, R$ 250 mil, não alcançaria nem o piso do que um artista nacional cobra por uma noite.
O Nordeste reage: o que fazem Bahia, Pernambuco e Piauí
O Rio Grande do Norte não está sozinho nesse debate. O que acontece aqui é parte de um movimento regional.
Quatro estados, quatro respostas
Como RN, Bahia, Pernambuco e Piauí estão enfrentando a escalada dos cachês
Na Bahia, o Ministério Público, o TCE e o TCM assinaram em março de 2026 uma nota técnica conjunta definindo R$ 700 mil como faixa de atenção especial. A análise dos contratos de 2025 mostrou que apenas 1% dos cachês pagos no estado ultrapassou esse valor. Contratações acima de R$ 700 mil passam a exigir justificativa detalhada, comprovação de capacidade financeira do município e demonstração de que não haverá prejuízo às contas públicas. O caso de Cruz das Almas é emblemático: o município foi o que mais gastou com atrações juninas na Bahia em 2025 — R$ 10,5 milhões —, e logo após, solicitou empréstimo de R$ 60 milhões à Caixa para infraestrutura e saneamento.
Em Pernambuco, 143 de 149 prefeitos consultados pela Associação Municipalista (Amupe) aprovaram um teto orientativo de R$ 350 mil — o mais restritivo do Nordeste. Os próprios gestores reconheceram que a concorrência entre municípios é o que alimenta a escalada dos cachês: cada cidade quer “o mesmo artista que o vizinho contratou”. A Amupe apresentou dados mostrando que apenas 1% dos cachês em 2025 superaram R$ 600 mil, e que a média geral ficou entre R$ 200 mil e R$ 250 mil.
No Piauí, a Associação Piauiense de Municípios (APPM) anunciou proposta de limite de R$ 400 mil, com assembleia prevista para abril de 2026. O TCE-PI já havia cobrado dos prefeitos prioridade na educação em detrimento dos gastos com shows. Na Assembleia Legislativa tramita projeto de lei que propõe teto de R$ 250 mil para contratação individual e R$ 500 mil para o valor total do evento.
O padrão é nítido: todos os estados estão usando a mesma base de cálculo (média de 2025 corrigida pelo IPCA) e todos enfrentam a mesma tensão — controlar gastos sem retirar a autonomia dos municípios.
O que fica dessa conta
Não se trata de ser contra o São João. Os festejos juninos movimentam economias locais, geram empregos temporários, atraem turismo e reforçam identidades culturais que são patrimônio do Nordeste. O São João de Assú, por exemplo, projeta movimentação de R$ 100 milhões na economia local.
O que os números mostram é outra coisa: que existe uma dinâmica de mercado na qual artistas de alcance nacional cobram cachês padronizados — e municípios de portes muito diferentes competem entre si para contratá-los. Quando Serra do Mel gasta R$ 4,3 milhões e Grossos gasta R$ 3,5 milhões, a pergunta não é se o São João é importante. É se esses valores são sustentáveis para essas cidades.
A resposta está sendo construída agora, com notas técnicas e painéis de transparência. O Nordeste inteiro está olhando para essa conta. No RN, os dados de 2025 já estão na mesa. Resta saber se 2026 será diferente.
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