A deputada federal Carla Dickson (PL-RN) conseguiu uma proeza rara na política potiguar: ofender publicamente a base eleitoral da qual depende para sobreviver nas urnas. Em entrevista ao programa Política Sem Filtro, da Rádio Difusora de Mossoró, a parlamentar declarou que “o povo evangélico não é tão inteligente como o povo que já está nesse meio político há muito tempo”, reportou Bruno Barreto.
A frase, que não sairia deslocada num artigo de colunista progressista sobre o avanço da bancada evangélica, veio justamente de uma deputada que se apresenta como representante desse segmento — e que depende dele para tentar a reeleição em 2026.
Sem grupo, sem rede, sem filtro
Dickson foi além do diagnóstico genérico. Admitiu, com uma franqueza que beira a autossabotagem, que não tem grupo político próprio. Citou nominalmente os grupos de Paulinho Freire e de Álvaro Dias como estruturas organizadas e reconheceu que o marido, Albert Dickson, é quem comanda a estratégia política da família — não ela.
“O que a gente tem é o segmento evangélico. E o segmento evangélico, a gente sabe: se eu depender da Assembleia de Deus, não vence“, disse a deputada, num resumo involuntário da própria fragilidade eleitoral.
Padrão de tropeço
A declaração se soma a um histórico recente de episódios constrangedores. Semanas atrás, Dickson acusou a correligionária de partido Nina Souza de usar a máquina da Prefeitura de Natal — sem apresentar qualquer prova. Precisou recuar e pedir desculpas publicamente.
Agora, o alvo é diferente: não é uma adversária política, mas a própria comunidade que a elegeu. Chamar de pouco inteligente o eleitorado evangélico — num estado onde a disputa por cadeiras federais é acirrada e a Assembleia de Deus fragmenta apoios entre múltiplos candidatos — é o tipo de declaração que adversários guardam para o horário eleitoral.
A ironia do discurso
Há uma contradição de fundo que a fala de Dickson expõe sem querer. A deputada usa o segmento evangélico como plataforma eleitoral — é dele que vem o voto, é nele que busca legitimidade — mas, quando o microfone está aberto, desqualifica esse mesmo segmento como politicamente incapaz.
O recado involuntário é claro: os evangélicos servem para votar, mas não sabem votar direito. É difícil imaginar estratégia eleitoral mais autodestrutiva do que essa.
Dickson tentou encerrar o assunto com tom motivacional: “É na minha fraqueza que Deus me faz forte”. Pode ser. Mas, na política, fraqueza declarada em rádio aberta costuma virar munição — e não milagre.
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