Quando decidiu congelar os óvulos aos 34 anos, Camila ainda não sabia exatamente quando viveria a maternidade. Na época, solteira, mudando de cidade e sem planos imediatos de formar uma família, ela enxergava o procedimento como uma forma de preservar possibilidades para o futuro.
Além disso, experiências próximas também influenciaram a decisão. Segundo ela, familiares e pessoas conhecidas enfrentaram dificuldades para engravidar depois de certa idade, o que despertou a preocupação com a fertilidade.
“Eu quis me antecipar e evitar enfrentar problemas de fertilidade no futuro”, relembra Camila, que via pessoas próximas enfrentando dificuldades para engravidar depois de certa idade e, por isso, resolveu se preparar.
Anos depois, ao lado da esposa Jéssica, o plano amadureceu. Aos poucos, vieram as conversas sobre filhos, os planos construídos a duas e, depois da pandemia, a certeza de que queriam ampliar a família. Neste primeiro Dia das Mães após o nascimento do pequeno Lucas, as duas vivem uma data que, durante muito tempo, parecia distante.
Camila e Jéssica começaram a se relacionar entre o fim de 2018 e o início de 2019. Desde então, o desejo pela maternidade foi crescendo gradualmente. Segundo elas, não houve uma conversa específica que marcou a decisão, mas uma construção feita ao longo dos anos.
“A gente foi amadurecendo essa ideia como casal e esse desejo foi ganhando cada vez mais espaço”, afirma Jéssica. “A gente sabe que é um investimento emocional e financeiro muito significativo.”
Além do planejamento financeiro, o casal também precisou lidar com inseguranças emocionais e receios relacionados ao preconceito.
“Quando envolve um filho, tudo fica mais delicado”
O desejo de formar uma família veio acompanhado de entusiasmo, mas também de medos silenciosos. Para Camila e Jéssica, a maternidade significava muito mais do que realizar um sonho antigo. Significava também colocar um filho no centro de uma sociedade que, segundo elas, ainda reage com preconceito diante de famílias homoafetivas.
As inseguranças apareceram antes mesmo da gravidez. Em alguns atendimentos, o casal sentiu falta de acolhimento e sensibilidade ao falar sobre reprodução assistida. Foram experiências que, segundo elas, deixaram evidente que o preconceito ainda atravessa espaços onde deveria existir apenas cuidado.
Jéssica conta que, até então, muitos desafios eram enfrentados apenas pelas duas. Com a chegada de um filho, porém, os receios ganharam outro peso.
“A gente é adulta, se defende. Mas, quando envolve um filho, tudo fica mais delicado”, afirma.
Ela diz que o medo nunca esteve relacionado apenas ao tratamento ou à possibilidade de engravidar. A preocupação também passou a ser o futuro de Lucas e a forma como ele será recebido pela sociedade.
“Existe essa insegurança sobre como vai ser essa experiência para ele, por ser filho de duas mães”, relata. “Mas também é algo para o qual a gente vem se preparando, para dar suporte, acolhimento e orientação.”
Foi nesse processo que elas retomaram contato com a especialista em reprodução assistida Dra. Maria Luisa Capriglione, médica que já acompanhava Camila desde o congelamento dos óvulos anos antes.
Diferentes possibilidades e métodos
Segundo a Dra. Maria Luisa, embora os avanços da medicina reprodutiva tenham ampliado as possibilidades para casais homoafetivos femininos, ainda existe desinformação e resistência, inclusive em ambientes de saúde.
“No caso dos casais homoafetivos femininos, nós temos hoje diferentes possibilidades”, explica. “Existe a inseminação intrauterina, que é um procedimento mais simples, em que a fecundação acontece naturalmente no corpo da mulher. E existe também a fertilização in vitro, que atualmente é o tratamento mais utilizado.”
A médica explica que, na fertilização in vitro, existe ainda a possibilidade do método ROPA, permitindo que as duas mulheres participem diretamente da gestação.
“Você utiliza o óvulo de uma mulher, forma o embrião e esse embrião é implantado no útero da outra mulher. Dessa forma, as duas participam da gestação”, detalha.
Mais do que os procedimentos técnicos, porém, Dra. Maria Luisa afirma que o acolhimento emocional faz diferença durante todo o tratamento.
“O processo da fertilização in vitro demanda muita energia, calma e concentração. Quanto mais acolhido o casal estiver, quanto mais entender cada etapa, mais leve esse processo fica”, afirma.
Ela também reconhece que o preconceito ainda faz parte da realidade de muitos casais.
“Os casais homoafetivos ainda sofrem preconceito, inclusive vindo de profissionais que teoricamente deveriam acolhê-los”, relata. “Em Natal, ainda encontramos resistência.”
“Quanto mais acolhido o casal estiver, mais leve fica”
Ao longo do tratamento, Camila e Jéssica perceberam que a fertilização in vitro envolve muito mais do que exames, medicações e consultas. Existe uma carga emocional que atravessa cada etapa do processo: da ansiedade pela resposta do corpo até a expectativa pelo resultado positivo.
Segundo a Dra. Maria Luisa Capriglione, esse é um dos pontos mais delicados da reprodução assistida. Para ela, acolhimento e escuta fazem diferença não apenas na experiência do casal, mas na forma como cada fase é enfrentada.
“O processo da fertilização in vitro demanda muita energia, calma e concentração”, afirma. “Quanto mais acolhido o casal estiver, quanto mais entender todas as etapas, mais leve esse processo fica.”
A médica conta que muitos casais chegam ao consultório carregando inseguranças que vão além da gravidez. Em histórias como a de Camila e Jéssica, o medo do preconceito costuma caminhar junto com o desejo de formar uma família.
Mesmo com avanços nas discussões sobre diversidade e direitos, Dra. Maria Luisa afirma que ainda existem situações de resistência, inclusive em ambientes médicos.
“Os casais homoafetivos ainda sofrem preconceito, inclusive vindo de profissionais que teoricamente deveriam acolhê-los”, relata. “Em Natal, isso ainda acontece.”
Além das barreiras emocionais, ela afirma que a desinformação continua sendo um obstáculo frequente para famílias homoafetivas que procuram reprodução assistida. Muitas chegam ao consultório sem saber, por exemplo, que a legislação brasileira permite o registro da criança por duas mães e regulamenta os procedimentos de reprodução assistida no país.
“Existe o mito de que não é possível registrar a criança, ou de que qualquer pessoa conhecida pode doar sêmen, mas existem regras específicas”, explica. “Ainda há muita desinformação sobre reprodução assistida para casais homoafetivos.”
Histórias como a de Camila e Jéssica ajudam justamente a ampliar o debate sobre acolhimento, acesso à informação e diferentes formas de constituição familiar, especialmente em uma data simbólica como o Dia das Mães, celebrado no último domingo (10).
O primeiro Dia das Mães
A notícia da gravidez chegou logo na primeira tentativa. Depois de meses de conversas, expectativas e planejamento, veio o resultado que transformaria definitivamente a vida das duas.
“Durante o processo, a maior preocupação era dar certo”, lembra Jéssica.
Agora, com Lucas prestes a completar um mês de vida, a rotina da casa passou a ser guiada por choros de madrugada, mamadeiras, colo e pequenas descobertas diárias que só a chegada de um filho consegue trazer.
Neste primeiro Dia das Mães, celebrado no último domingo (10), Camila e Jéssica viveram uma data que durante muito tempo existiu apenas no campo das possibilidades. Primeiro, no momento em que Camila decidiu congelar os óvulos sem saber exatamente quando formaria uma família. Depois, nas conversas inicialmente tímidas sobre maternidade que foram surgindo conforme o relacionamento amadurecia. E, agora, no cotidiano dividido ao lado de Lucas.
Ainda em fase de adaptação à nova rotina, elas descrevem a maternidade como a concretização de um projeto construído aos poucos, entre dúvidas, planejamento e expectativas.
No colo, o bebê de poucas semanas parece resumir uma trajetória atravessada por espera, amadurecimento e coragem. Uma história que ganhou um significado ainda mais simbólico justamente na semana dedicada às mães.
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