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“A gente sempre sentia falta de algo e não sabia o que era.” A frase de Marcelo parece simples, mas guarda o tipo de verdade que se descobre com o tempo. Ele e Magno estão juntos há doze anos. Construíram uma vida cheia de viagens, cachorros, amigos, rotina. Mas o amor entre os dois, de tão inteiro, ainda sobrava. E foi nessa sobra que nasceu o desejo de ser pai.
Yves e Bela, os cães da família, vieram primeiro. Como ensaio de cuidado. Como travessura. Mas havia espaço para mais um. Não alguém que completasse. Alguém que transbordasse.
O sonho quase se apagou antes mesmo de começar
Em 2023, eles decidiram dar o passo mais concreto: procurar uma clínica de fertilização in vitro em Natal. Levaram com eles exames, disposição e esperança. Voltaram pra casa com o peso de uma porta fechada na cara. A médica consultada sequer ofereceu caminhos. Disse que era difícil. Disse que não dava. E não disse mais nada.
Marcelo lembra da angústia. “Ela não me deu nenhuma alternativa. Só um não.” Foi o tipo de frustração que esvazia. Que faz a gente pensar se deveria mesmo ter sonhado.
Mas também é verdade que, quando o desejo é legítimo, ele cava outro caminho. E se não fosse por um sábado qualquer, talvez essa história tivesse parado ali.
Uma frase mudou tudo em um sábado qualquer
Marcelo foi contratado para cuidar da decoração de uma nova clínica. Não sabia que a cliente era médica, muito menos que era especialista em reprodução humana. Quando descobriu, ficou calado. Já conhecia o gosto da rejeição.
Mas naquele sábado, ouviu o que não esperava. “Vai dar certo.” Três palavras simples, ditas antes mesmo da primeira consulta. Mas bastaram para reativar o sonho que parecia suspenso.
A médica se chama Maria Luísa Capriglione. Quando soube da história do casal, ouviu com atenção, acolheu com delicadeza e tratou com seriedade. Nada de romantizações ou promessas vazias. Com ela, o sonho voltou a ser um projeto viável.
A vida começou no dia do aniversário de Magno
A barriga solidária já estava ali, do lado de dentro da própria família. Priscila, irmã de Magno, havia se oferecido desde o início. Em março de 2025, ela menstruou exatamente no dia do aniversário do irmão. E foi esse detalhe, íntimo, pequeno, simbólico, que marcou o início oficial do ciclo de implantação.
Para Marcelo, foi como se o presente de aniversário tivesse nome, endereço e batimentos por vir.
No dia 9 de abril, o embrião foi transferido. E antes mesmo do prazo recomendado para o exame de sangue, Priscila fez um teste e confirmou: estava grávida. Mel já estava a caminho.


Barriga solidária é legal, possível e já é realidade no Brasil
A médica Maria Luísa Capriglione explica que, pela legislação e normas do Conselho Federal de Medicina, é permitido no Brasil que uma mulher gestante atue como barriga solidária, desde que o processo não envolva qualquer tipo de pagamento ou comercialização.
O termo técnico é “útero de substituição”, e ele só pode ser usado por parentes até o quarto grau do paciente ou do casal — o que inclui mãe, irmã, tia, prima ou sobrinha. Quando não há esse vínculo de sangue, é preciso solicitar uma autorização formal ao Conselho Federal de Medicina. Além disso, o processo exige avaliações psicológicas, exames médicos e o acompanhamento por uma clínica habilitada.
No caso de Magno e Marcelo, todos os critérios foram respeitados. A estrutura da clínica, os laudos e a presença familiar permitiram que o processo fosse feito com segurança, respaldo legal e dignidade. “Cada vez mais temos atendido casais homoafetivos, tanto femininos quanto masculinos”, reforça a médica.
Mesmo assim, a desinformação ainda afasta muitos possíveis pais e mães. “Muita gente acha que isso só acontece fora do Brasil”, diz Marcelo. “A gente mesmo só via casais gays realizando esse sonho em outros países. Mas é possível. E é aqui.”
Foi por isso que decidiram abrir a vida ao público e criar o perfil @doispaisdemel. O que era particular virou também missão. Mostrar que há caminhos. Mostrar que não é raro. Só é invisível.
Antes de existir, ela já se chamava Mel
O nome veio antes mesmo da gravidez, antes de qualquer exame, antes mesmo da decisão de começar. Marcelo contou que, numa dessas conversas sem pretensão, olhou para o marido e disse: “Mel é um nome doce.” E pronto. Decidido. Quando a médica perguntou, o nome já estava ali, na frente de tudo.
Depois veio o exame genético. Três embriões. O primeiro era saudável. E era uma menina. Era Mel à caminho.
O primeiro Dia dos Pais com ela crescendo do lado de dentro
Mel nasce em dezembro. Mas o Dia dos Pais chegou primeiro. E com ele, a certeza de que a paternidade não precisa ser uma espera de colo. Pode ser também a espera do ultrassom, do quartinho sendo montado, das roupinhas dobradas. Pode ser a contagem regressiva com o coração batendo por três.
“Eu só penso no dia em que ela estiver nos meus braços. Não penso em nada dar errado. Vai ser perfeito, do jeito que Deus quis que fosse”, diz Marcelo, como quem já carrega no peito a resposta mais bonita para a pergunta mais simples: o que é ser pai?
Ser pai, talvez, seja isso. Esperar com ternura. Amar antes. Preparar-se para o que ainda não chegou como se já estivesse aqui. E desafiar o mundo, se for preciso, para poder simplesmente cuidar.
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