Quando os tiros interromperam uma transmissão ao vivo em frente à UPA do Alto de São Manoel, na noite desta segunda-feira (15), duas trajetórias que se cruzavam diariamente acabaram marcadas para sempre.
De um lado estava o vereador e pré-candidato a deputado federal Cabo Deyvison (PL), um dos políticos mais conhecidos de Mossoró na atualidade. Do outro, Diego de Oliveira Morais, de 37 anos, responsável por registrar as ações e fiscalizações que ajudaram a projetar a imagem pública do parlamentar.
O atentado deixou Cabo Deyvison ferido nas pernas. Diego não resistiu aos disparos e morreu no local.
Enquanto a Polícia Civil investiga quem ordenou e executou o crime, a pergunta que muitos mossoroenses passaram a fazer é: quem são as pessoas que estavam na mira dos atiradores naquela noite?
De carregador na Cobal a vereador de Mossoró
Deyvison Thales Martins do Nascimento, conhecido politicamente como Cabo Deyvison, nasceu em Mossoró e costuma destacar suas origens humildes.
Filho de um pescador e de uma lavadeira, trabalhou ainda jovem na antiga Cobal, onde atuava carregando mercadorias. Mais tarde, ingressou na área da segurança pública, passando pela Guarda Municipal e posteriormente pela Polícia Militar.
A visibilidade política começou a surgir nas redes sociais. Utilizando vídeos e transmissões ao vivo, passou a denunciar problemas em serviços públicos, cobrar providências das autoridades e abordar temas ligados à segurança pública.
A estratégia funcionou.
Nas eleições de 2024, foi eleito vereador de Mossoró pelo MDB com 1.766 votos. Já no primeiro mandato, consolidou uma atuação marcada por fiscalizações presenciais em unidades de saúde, escolas e equipamentos públicos.
Com frequência, essas visitas eram transmitidas ao vivo para milhares de seguidores.
Em março deste ano, deixou o MDB e se filiou ao PL, assumindo a condição de pré-candidato a deputado federal nas eleições de 2026.
A mudança ampliou sua projeção política e também seus embates. Além das críticas constantes à gestão municipal, Cabo Deyvison passou a fazer denúncias relacionadas à atuação de facções criminosas na cidade, tema que agora integra uma das linhas de investigação do atentado.
O homem por trás das câmeras
Se Cabo Deyvison era o rosto das transmissões, Diego de Oliveira Morais era um dos responsáveis por fazê-las acontecer.
Aos 37 anos, ele acompanhava o vereador durante gravações, fiscalizações e transmissões realizadas nas ruas de Mossoró.
Embora seu nome fosse pouco conhecido pelo grande público, Diego fazia parte dos bastidores da atividade política que ajudou a transformar Cabo Deyvison em uma das figuras mais reconhecidas da Câmara Municipal.
Foi justamente exercendo essa função que ele acabou atingido pelos disparos.
Na nota divulgada após o atentado, a equipe do vereador lamentou sua morte e o descreveu como um amigo que acompanhava as gravações realizadas pelo parlamentar.
Sua morte trouxe uma dimensão ainda mais dramática ao episódio.
Além de atingir um agente político em exercício, o ataque vitimou um trabalhador que estava desempenhando sua atividade profissional quando foi surpreendido pela violência.
Crime com características de execução
As primeiras informações da Polícia Civil apontam que o alvo principal dos criminosos era o vereador.
Uma das linhas de investigação apura se o atentado tem relação com denúncias feitas por Cabo Deyvison sobre a atuação de facções criminosas em Mossoró.
Após o ataque, um veículo suspeito de ter sido utilizado pelos atiradores foi encontrado abandonado no bairro Alameda dos Cajueiros.
No local do atentado, policiais recolheram um carregador de munição calibre 5.56. A polícia confirmou que armamentos de uso restrito foram utilizados na ação.
Responsável pelas investigações, o delegado Renato Oliveira classificou o episódio como bárbaro.
Segundo ele, os disparos colocaram em risco não apenas as vítimas, mas também pacientes, acompanhantes e profissionais de saúde que estavam na UPA no momento do ataque.
Duas histórias unidas pela tragédia
Até a noite de segunda-feira, Cabo Deyvison e Diego Morais estavam juntos em mais uma fiscalização, repetindo uma rotina que já fazia parte da atividade política do vereador.
Minutos depois, a realidade seria outra.
Um deles saiu ferido e passou a ocupar o centro de uma investigação que mobiliza as forças de segurança do estado. O outro teve a vida interrompida enquanto trabalhava atrás das câmeras.
A partir de agora, enquanto a polícia busca identificar os responsáveis e esclarecer a motivação do crime, Mossoró tenta compreender como uma transmissão ao vivo terminou em um dos episódios mais violentos e impactantes da história política recente da cidade.
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