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Home » ‘O pulmão cheio de ar’: Sócios da Dismed detalham como seria difícil sustentar esquema que operavam em várias prefeituras sem as propinas obtidas na Gestão Allyson

‘O pulmão cheio de ar’: Sócios da Dismed detalham como seria difícil sustentar esquema que operavam em várias prefeituras sem as propinas obtidas na Gestão Allyson

Dinarte Assunção Por Dinarte Assunção
20 de maio de 2026
Tempo de Leitura: 10 mins
gestão allyson
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A gestão Allyson é tratada em conversas sobre a distribuição de propina e do esquema que os sócios da Dismed haviam montado como fundamental para a operação em outras cidades.  Os sócios da Dismed, numa manhã de terça-feira, 13 de maio de 2025, falaram sem rodeios do coração do esquema, sem o qual não seria possível sustentar a arquitetura criminosa que desenharam. Os dois estavam sendo gravados, sem saber, por câmera escondida pela Polícia Federal. Eram Oseas Monthalggan Fernandes Costa, sócio-administrador da empresa, e Raimundo Wandecy Campelo Gurgel — vulgo “Nenén”, ex-sócio da Dismed e, na época, funcionário da distribuidora. O assunto era a Prefeitura de Mossoró, sua principal cliente. Em determinado momento da conversa, Nenén foi categórico:

“Agora na DISMED hoje se não tivesse MOSSORÓ nós não tinha volume pra ganhar não. (…) Se não tiver uma prefeitura grande, uma Macaíba, se a gente agregasse outro ponto em cima de MOSSORÓ a gente não tava dando conta de tanto serviço.”

Em outro momento da mesma conversa, na página 1045, Nenén tinha sido ainda mais direto: “se não tivesse MOSSORÓ não tinha as outra”. E mais adiante, acrescentam: “MOSSORÓ hoje se ela lhe pagasse quinhentos mil você ia achar graça no dinheiro. (…) Pronto, o pulmão enchia de ar.”

Em quatro páginas seguidas de transcrição, dois operadores do esquema descrevem, em primeira pessoa, a dependência absoluta de toda a operação da Dismed no Rio Grande do Norte a uma única cidade — Mossoró.

Os números levantados pelo Ministério Público Federal dão a dimensão exata do que Nenén tentava explicar a Oseas. Entre 2021 e 2025, a Prefeitura de Mossoró pagou à Dismed mais de R$ 13,5 milhões — segundo dados extraídos pela PF do Tribunal de Contas do Estado e reproduzidos nos autos do processo da Operação Mederi. É mais do que toda a soma documentada do que a empresa recebeu de Serra do Mel, José da Penha, Apodi, Paraú e Pau dos Ferros juntos.


O retrato dos clientes

Perícia da PF juntada aos autos da Operação Mederi, ranqueia os principais municípios que pagaram à Dismed nos últimos anos. O retrato é desigual.

MunicípioTotal pago à DismedPeríodoFração do volume Mossoró
MossoróR$ 13.500.000,00 (pico R$ 5,86 mi em 2024)2021-2025100%
Serra do MelR$ 4.089.868,852016-202530%
José da PenhaR$ 1.510.864,592016 + 2022-202511%
ApodiR$ 1.330.998,80 (piso)2023-202510%
ParaúR$ 1.309.335,382018-202510%
Pau dos FerrosR$ 969.489,002025 (ARP 081/2025)7%

Somados, os outros cinco municípios chegam a R$ 9,2 milhões. Mossoró sozinha, em quatro anos, foi R$ 4,29 milhões a mais do que esses cinco juntos.

Na proporção total documentada nos autos — cerca de R$ 22,7 milhões somando os seis municípios —, Mossoró respondeu por 59% de tudo. Não é uma cidade entre outras na carteira da Dismed. É a viga mestra.

O contraste fica ainda mais agúdo na comparação entre períodos. Serra do Mel, terceira maior cliente da empresa em todo o período investigado, pagou R$ 4,09 milhões à Dismed ao longo de quase uma década, entre 2016 e 2025. Mossoró superou esse valor sozinha em um único ano: 2024, quando pagou R$ 5,86 milhões à distribuidora.


“O pulmão enchia de ar” na Gestão Allyson

A conversa entre Nenén e Oseas naquela manhã de maio durou em torno de meia hora. Está reproduzida em quatro arquivos sequenciais, todos transcritos pela PF entre as páginas 1045 e 1048 do processo. O ponto que Nenén tentava enfiar na cabeça de Oseas, naquela conversa, era de matemática de gestão: a Dismed estava aceitando margens menores em Mossoró porque o volume da cidade compensava, e — mais importante — porque o volume da gestão Allyson era o que permitia comprar barato nas outras pontas.

NENÉN: “Tá dando volume pra gente ganhar nos outros canto. Tá dando volume pra nós comprar uma coisa lá que [inaudível] de seis centavos, cinco, hoje eu compro de quatro.”

A lógica é simples e está toda registrada na escuta. Quanto maior o volume da operação, maior o desconto que a Dismed conseguia dos fornecedores. Com o desconto, a empresa baixava o custo de aquisição dos medicamentos — e podia oferecer preços mais competitivos para vencer ou fraudar licitações em outros municípios. Mossoró financiava, em escala, o desconto da Dismed em Janduís, Caraúbas, Felipe Guerra. O termo que Nenén usa é direto: “o pulmão enchia de ar”.


A matemática nua de uma Ordem de Compra sobre propinas em Mossoró

No mesmo conjunto de gravações, Oseas detalha a Nenén a estrutura de custos de uma operação típica em Mossoró. 

OSEAS: “Vem quinhentos mil de ordem de compra, pra gente ganhar dinheiro era pra gente entregar no mínimo aí 60%, aí dos quinhentos a gente tá entregando duzentos e cinquenta pelo preço, você concorda comigo? (…) Duzentos e cinquenta você tá perdendo, dos duzentos e cinquenta vezes vinte e cinco por cento que é quinze do homem e dez disso aí, vezes vinte e cinco por cento né? A gente já está perdendo sessenta e três mil, aí dos outros duzentos e cinquenta, a gente tá usando trinta, margem de trinta por cento né?”

Traduzindo a fala em linguagem fora do código: para cada R$ 500 mil pagos por uma Ordem de Compra da Prefeitura, a Dismed entregava metade — cerca de R$ 250 mil em medicamentos a preço de custo. A outra metade era dividida entre propinas e margem da empresa. Os sócios chegam, em cálculo de cabeça, ao seguinte desenho:

Fo nesse diálogo onde foi cunhada a famosa matemática de Mossoró, segundo a qual na gestão Allyson, ele tinha direito sobre 15% dos valores desviados e uma pessoa que os sócios da Dismed chamam de Fátima, ficava com 10%.

O “homem” das gravações, segundo a leitura da PF (página 1043 do mesmo processo), é o então prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra; “Fátima” é Maria de Fátima Dantas dos Santos, assessora de comunicação nomeada por Allyson na Portaria nº 157/2024. Em outro trecho da mesma gravação, Oseas resume a equação de cabeça: “Se você vender um milhão, você só vai ver quinhentos.”


O que faltava — e a frustração com o ritmo

Naquela manhã de maio, Nenén estava preocupado com uma coisa: o ritmo das Ordens de Compra. Em sua percepção, Mossoró estava puxando o freio:

NENÉN: “Agora a matemática MONTHALGGAN, se você for analisar, o que eu vejo de MOSSORÓ é que tá vindo pouca Ordem de Compra pro volume de MOSSORÓ. Como é que MOSSORÓ pede seiscentos mil reais e põe duas ordem de compra de trezentos mil? (…) Pra dois meses!”

A reclamação dos sócios da Dismed era de que, naquele momento, a gestão Allyson estava emitindo menos OCs do que a cidade — segundo eles — comportaria. Para contrastar, Nenén compara o ritmo de Mossoró ao de José da Penha, cidade de cerca de 6 mil habitantes no Alto Oeste potiguar:

NENÉN: “Aí JOSÉ DA PENHA, no mesmo intervalo de tempo, usa duzentos mil. (…) A proporção, MONTHALGGAN, é como se MOSSORÓ tivesse uns dois milhões!”

Em outras palavras: pelo padrão de consumo de uma cidade pequena como José da Penha, projetado para o porte de Mossoró — cidade trinta a quarenta vezes maior em população —, a demanda deveria estar em torno de R$ 2 milhões mensais. Mas estava chegando apenas R$ 600 mil a cada dois meses.

Nenén não escondia o que considerava o ritmo “natural” daquele esquema: “MOSSORÓ era no mínimo ali era quinhentos mil conto no mês!” Quinhentos mil reais ao mês em Ordens de Compra. Seis milhões de reais por ano. Próximo do pico de fato registrado pela Prefeitura de Mossoró com a Dismed em 2024 — R$ 5,86 milhões, segundo dados do TCE-RN reproduzidos no processo.


Por que a Dismed “arrematava em todo canto”

A frase mais sintética da escuta sobre a economia política do esquema veio em sequência. Nenén estava explicando a Oseas por que era importante manter Mossoró rodando, com a gestão Allyson, mesmo com margens apertadas:

NENÉN: “Agora na DISMED hoje se não tivesse MOSSORÓ nós não tinha volume pra ganhar não. Você vê que onde a gente vai a gente arremata em todo canto.”

“Arrematar em todo canto” significava, na linguagem dos sócios, vencer licitações nos pequenos municípios do Rio Grande do Norte. As listas levantadas pela PF ao longo do inquérito identificaram contratos da Dismed em pelo menos vinte e dois municípios potiguares — entre eles Tibau, Upanema, Areia Branca, Caraúbas, Felipe Guerra, São Miguel, Janduís, Apodi, Pau dos Ferros, Severiano Melo, Pendências, Marcelino Vieira, Luís Gomes, Patu e Macau.

Em cada um desses municípios, a Dismed conseguia oferecer preços competitivos porque comprava em escala. E comprava em escala porque Mossoró garantia o piso do faturamento. A engenharia dos sócios era essa: aceitar a margem apertada em Mossoró, com a propina embutida no fluxo, para ganhar o desconto do fornecedor e usá-lo como vantagem competitiva nas outras pontas.


“MOSSORÓ chegou a ter dois milhões”

Em determinado momento da gravação, Oseas reforça a tese de Nenén com um número de memória — uma referência ao pico do que a empresa já fez na cidade:

OSEAS: “Ali não vende não, MOSSORÓ chegou a ter dois milhões [inaudível].”

A passagem, embora truncada pela má qualidade do áudio, conversa com o pico documentado pelo TCE-RN: em 2024, a Prefeitura de Mossoró pagou R$ 5,86 milhões à Dismed em um único ano. Era a confirmação, em valores reais, do que Nenén tentava dizer. Nenhum outro município chegou perto. A própria Serra do Mel — onde o sócio José Moabe é vice-prefeito e que aparece como terceira maior remetente nos autos —, em quase uma década de relacionamento, pagou R$ 4,09 milhões à Dismed. A gestão Allyson pagou esse valor sozinha em aproximadamente oito meses, em 2024.


O que muda quando se entende a dependência

A descrição que Nenén faz do papel de Mossoró no esquema tem três implicações práticas, todas ancoradas em outras peças do processo.

A primeira é que a queda do faturamento da Dismed, após a fase ostensiva da Operação Mederi em 27 de janeiro de 2026, foi vertiginosa. A Representação Criminal registra que o faturamento da empresa caiu 87,13% entre janeiro e fevereiro de 2026 — de R$ 1,36 milhão para R$ 175 mil em um único mês. O MPF atribui a queda ao “estancamento do desvio, não ao bloqueio” de contas. Os números do TCE confirmam: sem a gestão Allyson rodando no padrão habitual, a empresa entrou em colapso operacional.

A segunda é que a Dismed continuou a vencer contratos em outros municípios mesmo durante a investigação. A Prefeitura de Pau dos Ferros, por exemplo, homologou uma Ata de Registro de Preços com a empresa em 17 de outubro de 2025 — dezoito dias antes de a Representação Criminal ser protocolada no TRF-5. O valor: R$ 969.489,00. A Prefeitura de Apodi assinou outra ata com a Dismed em 6 de novembro de 2025 — dois dias após o protocolo da representação criminal. Os pequenos municípios que Nenén dizia que a Dismed “arrematava em todo canto” continuavam contratando.

A terceira é que a investigação da Operação Mederi atinge, em essência, um modelo econômico, não um conjunto isolado de contratos. A Dismed estruturou uma operação em que o volume de uma única cidade financiava a presença comercial em outras vinte. Quando a fonte principal fechou, todo o resto se tornou inviável. Os próprios sócios sabiam disso — e o disseram, em maio de 2025, sem saber que estavam sendo gravados.


O contraponto silencioso

A gestão Allyson e os sócios da Dismed, ouvidos em outros momentos da investigação, têm contestado as conclusões do MPF. A defesa de Oseas e de Roberta Praxedes Costa nega o cabimento das medidas cautelares deferidas pelo TRF-5. A defesa da Prefeitura de Mossoró tem sustentado, em manifestações públicas, que os contratos com a Dismed seguiram os trâmites legais de licitação. A administração atual da cidade, a cargo do prefeito Marcos Antônio Bezerra de Medeiros, ainda não se manifestou especificamente sobre o conteúdo das escutas que descrevem Mossoró como motor do esquema.

O Blog do Dina segue apurando. O espaço está aberto para manifestação.

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