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No final de uma campanha, os homens que inspiram receio como Márcio Rêgo costumam escrever cartas. Cartas que não servem para prometer o paraíso, mas apenas para garantir que o inferno não virá com eles. São bilhetes de emergência. Um “confie em mim” de última hora. Um tapa no ombro do eleitor dizendo: “Não será tão ruim assim, prometo.” Hipólito Yrigoyen fez isso na Argentina, por exemplo.
Fiquei encantado ao ver que o conteúdo final da campanha de Márcio tem como pano de fundo os pântanos lamacentos do rio Potengi, recordando como eram as contas da Unimed num passado onde a turma que está com Márcio comandava a cooperativa. Isso foi num passado distante, antes da Unimed Natal ser uma das 12 maiores do país.
Márcio Rêgo não escreveu essa carta. Não escreveu, não ditou, não sussurrou. Não deu nem o gesto. E talvez porque, no fundo, saiba: não há carta que o redima dos sinais que o antecedem.

O Que Poderia Contestar a Carta de Márcio Rêgo?
Como confiar em quem tentou barrar o maior símbolo de virada da história recente da Unimed Natal — o novo hospital? Como delegar o futuro da cooperativa a alguém que assinou pedido para paralisar a obra e exigiu auditoria como quem planta suspeita, torcendo para colher escândalo? Mas não colheu. Porque o que veio da auditoria foi um laudo que atestou tudo: legitimidade, economicidade e, sobretudo, planejamento.
Derrotado pelo laudo, Márcio não recuou — disfarçou. Passou a elogiar a obra que tentou sepultar. Como quem atira no telhado e depois elogia o acabamento. Um homem que não assume nem sua própria contradição.
Mas Márcio não parou por aí. Tentou impedir que o hospital, já pronto, fosse divulgado. Pleiteou a suspensão de pagamentos a veículos de comunicação e blogs durante a campanha de lançamento. Uma tentativa tosca de fazer calar aquilo que ele não conseguiu impedir de existir. Se não destruiu a realidade, que ao menos ela ficasse invisível.

E esse padrão — essa fobia aos fatos — se repete em sua postura eleitoral. Quando ultrapassado nas pesquisas, denunciou complôs. Quando questionado, se vitimizou. Quando pressionado, apelou ao velho coitadismo de quem confunde crítica com perseguição. Como se a Unimed fosse palco de novela mexicana — e ele, a mocinha injustiçada.
Peço perdão pelo emprego de mocinha. É apenas figurado, pois em novelas mexicanas são elas que sofrem.
Mas os cooperados conhecem o roteiro. Porque Márcio não é um estranho à Unimed. Ele é parte da história que quase afundou a cooperativa. Quando a Unimed era um navio à deriva, mergulhada em dívidas e desorganização, ele e seus aliados estavam a bordo.
Foram protagonistas do naufrágio. E agora, com a casa reconstruída, querem retornar ao comando como se não tivessem culpa. Dizem que querem salvar. Mas do que, se não deles mesmos?
A cooperativa que hoje está entre as 12 maiores do país não pode se dar ao luxo da nostalgia do caos. Não pode retroceder a um modelo onde a retórica vem antes da competência. Porque o problema de Márcio Rêgo não é só o que ele fez. É o que ele representa: a volta de uma mentalidade perigosa, pantanosa, lamacenta
Ele se lança candidato sem jamais ter comandado uma operação com o tamanho, a pressão e a complexidade da Unimed Natal. Nunca conduziu uma holding. Nunca gerenciou contratos multimilionários. Nunca foi chamado a liderar em tempos de crise. E quer assumir uma cooperativa que, depois de anos de reestruturação, exige excelência — não improviso.
E é por isso que sua carta faz falta. Porque ela seria o reconhecimento, ainda que tardio, de que os fantasmas que o cercam não são invenção. São memórias vivas. E que ele, no mínimo, deveria tentar exorcizá-las.
Mas ele não escreveu. E talvez porque, no fundo, saiba que nenhuma carta conteria o que os fatos já disseram.
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