O Brasil elegeu uma safra de outsiders para o Senado em 2018. Fartos de figuras tradicionais, eleitores de estados tão diferentes quanto Sergipe e Rio Grande do Norte apostaram em dois policiais sem carreira política prévia: Alessandro Vieira, delegado da Polícia Civil, pelo MDB sergipano, e Styvenson Valentim, policial militar, pelo Podemos potiguar. Os dois surfaram a mesma onda, venderam o mesmo discurso anti-establishment e chegaram a Brasília com mandatos quase gêmeos na origem.
Sete anos depois, a semelhança acabou.
O caminho de Vieira
Alessandro Vieira se consolidou como um dos senadores mais combativos da República. Na CPI do Banco Master, tem sido peça central na investigação de operações financeiras que envolvem bilhões em títulos públicos e conexões com o poder. Antes disso, já havia se notabilizado por enfrentar, com documentos e argumentos técnicos, o que chama de expansão autoritária do Supremo Tribunal Federal — uma pauta que incomoda tanto a esquerda quanto a direita, porque não se trata de torcida, mas de limites institucionais.
Vieira tem acesso a emendas parlamentares como qualquer senador do jogo institucional. Usa-as. Mas não fez delas a razão de existir do mandato. O foco permanece em fiscalização, investigação e debate nacional.
O caminho de Styvenson
Styvenson Valentim começou o mandato com postura de antipolítica — o parlamentar que não joga o jogo. Na primeira metade, recusou articulações, evitou o balcão de negócios do Senado e manteve o discurso de campanha. Funcionou como marca pessoal, mas produziu pouco resultado legislativo.
A virada veio quando abraçou o que condenara. Styvenson se aproximou de Davi Alcolumbre, presidente do Senado e operador-mor da distribuição de emendas. Passou a jogar o jogo da articulação com competência — mas o jogo que joga é exatamente o que prometeu destruir em 2018.
O resultado prático é um senador que direciona emendas ao Rio Grande do Norte e usa as redes sociais para bater no governo Fátima Bezerra. É a curtida fácil: o público bolsonarista e anti-PT do RN engaja, compartilha, aplaude. Não exige aprofundamento, não gera risco político, não incomoda ninguém em Brasília.
O que explica a diferença
Os dois têm perfil parecido, acesso a recursos e mandatos da mesma safra. A diferença não é de oportunidade — é de escolha.
Vieira escolheu o confronto com estruturas de poder real: o sistema financeiro na CPI do Banco Master, o STF na discussão sobre limites institucionais. São pautas que criam inimigos poderosos e não rendem curtida fácil em rede social de nicho estadual.
Styvenson escolheu a acomodação. Ao se tornar homem de Alcolumbre, ganhou o fluxo de emendas que irriga sua base no RN, mas perdeu a liberdade de atuar em qualquer frente que possa desagradar quem controla a torneira. Entrar na CPI do Banco Master? Confrontar o STF? Questionar a distribuição de poder no Senado? Cada uma dessas frentes esbarra no mesmo obstáculo: o risco de que Alcolumbre feche a torneira.
O eleitor potiguar que votou em Styvenson em 2018 buscando um parlamentar que enfrentasse o sistema tem, em 2025, um senador que é o sistema — com a diferença de que posta stories contra Fátima entre uma articulação e outra.
Alessandro Vieira prova que era possível outro caminho. Não mais fácil, não mais popular no Instagram estadual, mas infinitamente mais relevante para o país. A comparação é inevitável — e, para Styvenson, desconfortável.
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