Justiça suspende licitação e determina economia milionária, mas gestão de Jussara Sales mantém silêncio e não cumpre ordem. O que está por trás da insistência em favorecer empresa com sede em sala comercial e histórico suspeito?
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Uma decisão judicial clara, um prejuízo de R$ 7 milhões evitado e uma ordem expressa para reclassificar a empresa mais barata. Mesmo assim, a prefeitura de Extremoz permanece em silêncio e não cumpre a determinação da Justiça. O que explica a insistência da gestão da prefeita Jussara Sales (PL) em manter uma licitação de transporte escolar que custaria quase R$ 7 milhões a mais aos cofres públicos? Por que favorecer uma empresa com sede em uma pequena sala comercial e um perfil repleto de sinais de alerta?
O mistério se aprofunda quando se conecta o presente com o passado recente de Extremoz — um município que já viu dois prefeitos afastados por esquemas de fraude em licitações — e com os interesses políticos da família da prefeita, cujo marido já articula candidatura a deputado estadual.
A Decisão Judicial que a Prefeitura Ignora
Em 17 de outubro, o desembargador Vivaldo Pinheiro, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, foi contundente ao suspender o Pregão Eletrônico nº 017/2025, que trata da contratação de transporte escolar em Extremoz. A decisão determinou a reclassificação da empresa P. G. Construções e Serviços, que havia sido desclassificada pela Controladoria do Município, e a suspensão imediata de todos os atos de adjudicação e homologação do contrato.
O magistrado apontou três ilegalidades no processo: violação ao dever de saneamento de vícios formais previsto na Lei 14.133/2021, imposição de exigência não prevista no edital e juízo de inexequibilidade dissociado da realidade. “A manutenção da desclassificação da Agravante resultará na contratação de proposta substancialmente mais onerosa ao erário, com sobrepreço de quase sete milhões de reais, montante expressivo para as finanças de um município de porte médio como Extremoz”, destacou.
Os números são claros: a P. G. Construções ofereceu o serviço por R$ 13,2 milhões, enquanto a empresa declarada vencedora pela prefeitura, a CRA Serviços e Locações Ltda, apresentou proposta de R$ 20,2 milhões. A diferença de R$ 6,9 milhões representa quase 52% a mais de custo para o município.
Mas aqui está o mistério central: mesmo com a decisão judicial, a prefeitura de Extremoz não se pronunciou sobre o cumprimento da ordem e não há indícios de que tenha reclassificado a empresa mais barata. O silêncio da gestão contrasta com a gravidade da situação e levanta a pergunta que não quer calar: por quê?
O Que Torna a CRA Tão Especial?
Se a prefeitura insiste em manter uma empresa que custa R$ 7 milhões a mais, mesmo descumprindo ordem judicial, é porque há algo de muito valioso na CRA Serviços e Locações. Mas o que seria?
A empresa, com capital social de R$ 1 milhão, tem como sócia-administradora única Camila Reveine de Assis. Em setembro, o Portal ZN publicou denúncias explosivas: a sede da CRA, em Parnamirim, é uma pequena sala comercial, “sem estrutura compatível com a execução de um serviço milionário de transporte escolar”. A publicação levantou a suspeita de se tratar de uma empresa com “sócia laranja”.
Uma consulta ao CNPJ revela um perfil ainda mais estranho: a CRA possui mais de 80 atividades econômicas secundárias registradas — desde construção de rodovias e geração de energia elétrica até serviços de UTI móvel, laboratórios clínicos e organização de festas. Essa diversidade extraordinária é frequentemente associada a empresas de fachada, criadas para participar de licitações sem estrutura real para executá-las.
Outro dado suspeito: a CRA foi excluída do Simples Nacional em 29 de fevereiro de 2024, poucos meses antes da licitação milionária em Extremoz. Por que uma empresa de transporte escolar sairia do regime simplificado justamente antes de disputar um contrato de R$ 20 milhões?
Camila Reveine de Assis também é sócia de outra empresa, a Life Saúde e Serviços Ltda, focada em “atividade médica ambulatorial” — um setor completamente diferente do transporte. A empresária já firmou contratos com outros municípios do Rio Grande do Norte, incluindo uma dispensa emergencial em Touros em agosto de 2022.
A pergunta que fica: o que torna essa empresa tão especial aos olhos da prefeitura de Extremoz a ponto de valer a pena descumprir uma ordem judicial e pagar R$ 7 milhões a mais?
A Guerra de Liminares e a Confusão Conveniente
A insistência da prefeitura ganha um contexto ainda mais suspeito quando se analisa a guerra de liminares judiciais. Menos de um mês antes da decisão do desembargador Vivaldo Pinheiro, em 26 de setembro, o juiz convocado Roberto Guedes havia proferido decisão em sentido oposto, garantindo a legalidade do contrato com a CRA e afastando o risco de paralisação do transporte escolar.
Naquela ocasião, o magistrado enfatizou que “não houve comprovação de fraude ou conluio entre as empresas participantes” e que a paralisação do serviço representaria “grave risco ao direito à educação”. A decisão permitiu que a prefeitura mantivesse o contrato com a CRA, mesmo com as denúncias circulando.
As duas decisões contraditórias criaram uma confusão jurídica conveniente: a prefeitura pode alegar que está apenas cumprindo a primeira decisão, enquanto ignora a segunda, mais recente e de instância superior. Mas essa estratégia levanta outra questão: por que a gestão municipal escolhe seguir a decisão que favorece a empresa mais cara e ignora a que protege o erário?
O Fantasma do Passado: Extremoz e as Fraudes em Licitações
A resposta para o mistério pode estar no passado recente de Extremoz. Em outubro de 2020, o então prefeito Joaz Oliveira foi afastado do cargo em uma operação da Polícia Federal e do Ministério Público que investigava um esquema de mais de R$ 2 milhões em fraudes a licitações, principalmente na área da saúde.
O modus operandi descoberto pela força-tarefa é revelador: o prefeito e servidores promoveram fraudes em licitações para compra de medicamentos em troca de pagamento de propina. Parte dessa contrapartida foi desviada para financiar a campanha eleitoral da esposa de Joaz, Elaine Neves, que também era chefe de gabinete da prefeitura. A irregularidade foi encoberta com doações ilegais feitas por cargos comissionados.
O esquema ainda estava ativo quando foi descoberto: somente em 2020, as empresas envolvidas haviam recebido mais de R$ 800 mil do município. Cinco servidores públicos foram afastados, incluindo o casal Joaz e Elaine, e sete empresários foram investigados.
Antes de Joaz, outro prefeito de Extremoz, Enilton Trindade, também foi alvo de ações do Ministério Público Federal por improbidade administrativa, acusado de ocultar documentos necessários à apuração de irregularidades em licitações.
Extremoz, portanto, tem um histórico de gestões que usaram licitações fraudulentas para desviar dinheiro público e financiar projetos políticos. A pergunta que se impõe: estaria a atual gestão repetindo o mesmo padrão?
As Conexões Políticas: O Projeto de Poder da Família Sales
A insistência em favorecer a CRA ganha contornos políticos quando se analisa os interesses da família da prefeita Jussara Sales. Seu marido, o empresário Ney Lima (conhecido como Ney Slim), já articula abertamente sua pré-candidatura a deputado estadual em 2026, com a bênção de figuras importantes da política potiguar, como Rogério Marinho, Robinson Faria e General Girão.
A estratégia política, segundo blogs locais, é garantir uma votação expressiva em Extremoz — cerca de 10 mil votos — para alavancar a eleição de Ney Lima. Para isso, é fundamental manter o controle sobre contratos milionários no município, que geram empregos, movimentam a economia local e criam bases de apoio político.
Um contrato de R$ 20 milhões para transporte escolar não é apenas uma prestação de serviço: é uma máquina de geração de capital político. Empregos para motoristas, monitores, mecânicos e administrativos; relações com fornecedores de combustível e peças; visibilidade pública com a entrega de novos ônibus. Tudo isso se converte em votos e influência.
A pergunta que surge: a insistência em favorecer a CRA estaria relacionada a algum tipo de compromisso político ou financeiro que beneficie o projeto de poder da família da prefeita?
Nas redes sociais, cidadãos de Extremoz fazem denúncias que apontam nessa direção. “Eu fico chocada, aí em Extremoz pode tudo??? Familiares próximos com mercados grandes, fiquei sabendo que ela não deixa outras empresas de mercado grandes abrir em Extremoz, pra não perder os clientes”, comentou uma internauta em uma postagem sobre o caso.
O Silêncio Ensurdecedor da Prefeitura
Diante de todas essas questões, a prefeitura de Extremoz mantém um silêncio ensurdecedor. Não há pronunciamento oficial sobre o cumprimento da decisão judicial. Não há explicação sobre por que a CRA foi favorecida. Não há transparência sobre os critérios que levaram à desclassificação da empresa mais barata.
O silêncio, em si, é uma resposta. Quando uma gestão pública escolhe não se manifestar diante de acusações graves, de decisões judiciais contundentes e de um histórico de corrupção no município, ela está dizendo algo: que não tem respostas aceitáveis para dar.
As Perguntas que Exigem Respostas
O mistério do transporte escolar de Extremoz se resume a uma série de perguntas que a prefeita Jussara Sales e sua equipe precisam responder à população:
1. Por que a prefeitura não cumpre a decisão judicial que determina a reclassificação da empresa mais barata? O que justifica o descumprimento de uma ordem expressa da Justiça?
2. Por que insistir em pagar R$ 7 milhões a mais aos cofres públicos? Qual o interesse em favorecer uma empresa que custa 52% mais caro que a concorrente?
3. O que torna a CRA Serviços e Locações tão especial?Existe alguma relação entre a sócia da empresa, Camila Reveine de Assis, e a família da prefeita ou seu círculo político?
4. Como uma empresa com sede em uma pequena sala comercial e mais de 80 CNAEs desconexos pode executar um contrato de R$ 20 milhões? A prefeitura verificou a capacidade operacional real da CRA?
5. Por que Extremoz, um município com histórico recente de fraudes em licitações que resultaram no afastamento de prefeitos, parece repetir os mesmos padrões suspeitos? A atual gestão aprendeu algo com os erros do passado?
6. O projeto político de Ney Lima para deputado estadual tem alguma relação com o controle de contratos milionários no município? O dinheiro público está sendo usado para construir capital político?
O Que Está em Jogo
O mistério do transporte escolar de Extremoz não é apenas sobre uma licitação. É sobre um padrão de comportamento que se repete em gestões sucessivas: o uso de contratos públicos para fins políticos e, possivelmente, para enriquecimento ilícito.
Enquanto a prefeitura mantém o silêncio e descumpre decisões judiciais, mais de 12 mil estudantes de Extremoz ficam reféns de uma disputa que deveria ser simples: contratar o melhor serviço pelo menor preço. O dinheiro que poderia ser economizado — R$ 7 milhões — poderia ser investido em melhorias na educação, na saúde ou na infraestrutura do município.
A Justiça fez sua parte ao suspender uma contratação que geraria prejuízo milionário. Agora, cabe aos órgãos de controle — Ministério Público, Tribunal de Contas e Polícia Federal — investigar o que está por trás da insistência da prefeitura em favorecer a CRA. E cabe à população de Extremoz cobrar transparência e respostas.
O mistério do transporte escolar de Extremoz precisa ser desvendado. Porque quando uma gestão pública escolhe pagar mais caro, descumprir a Justiça e manter o silêncio, há sempre algo muito errado acontecendo nos bastidores. E a história de Extremoz já mostrou que esse “algo errado” costuma terminar com prefeitos afastados e dinheiro público desviado.
A pergunta final é: a prefeita Jussara Sales vai quebrar o silêncio e esclarecer o mistério, ou vai seguir o caminho de seus antecessores?
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