O que você vai ler:
A vereadora Brisa Bracchi (PT) repete que sua emenda de R$ 18 mil para o Rolé Vermelho – Bolsonaro na Cadeia foi “apoio à cultura”. Garante que tudo foi legal, transparente, publicado no Diário Oficial. E insiste que o pedido de cassação é perseguição política.
Mas quem acompanha esse caso percebe: há buracos na narrativa da vereadora. Buracos que não podem ser ignorados quando falamos de dinheiro público.
O critério invisível
Brisa diz que apoia a cultura em todas as regiões da cidade. Mas qual foi o critério objetivo para que o Rolé Vermelho recebesse sua emenda?
Até agora, nenhuma explicação. Não se sabe se houve chamada pública, se outros projetos culturais tentaram apoio e ficaram de fora, ou se foi uma escolha direta do mandato.
Se não existe critério transparente, a acusação de uso seletivo de recursos públicos ganha força. Não basta alegar que foi incentivo cultural: é preciso mostrar como e por que esse evento foi escolhido.
Cultura ou palanque?
A defesa da vereadora é de que o evento foi cultural, embora com uma pauta política. Mas essa é justamente a encruzilhada: dinheiro público pode financiar cultura que assume posição contra um adversário político específico?
A pulseira com “Bolsonaro na Cadeia” não é detalhe estético: é símbolo. É a fronteira onde o incentivo cultural esbarra no ato político.
Brisa precisa responder se reconhece esse limite ou se considera legítimo ultrapassá-lo. Até aqui, sua fala relativiza, mas não enfrenta o ponto central: não é sobre cultura ser neutra, é sobre se o dinheiro público pode bancar esse tipo de mensagem.
Transparência não é absolvição
A vereadora afirma que tudo estava registrado em Diário Oficial e divulgado em suas redes sociais. É verdade. Mas transparência, sozinha, não absolve.
Estar publicado não significa estar correto. Do contrário, bastaria a legalidade formal para justificar qualquer gasto, e não é isso que a Constituição determina. A questão não é “se estava escondido”, mas se era correto usar verba pública daquela forma.
Brisa ainda não respondeu: o uso da sua própria emenda em um evento amplamente divulgado em seus canais não configura promoção pessoal?
O dinheiro que sumiu da conversa
Brisa afirma que os três artistas contratados pediram a anulação dos cachês. Um gesto de solidariedade política, segundo ela.
Mas aqui fica outra lacuna: houve de fato cancelamento contratual formalizado pela Funcarte? Os R$ 18 mil já retornaram aos cofres públicos? Se sim, onde está o documento oficial que comprova a devolução?
Até o momento, só temos a palavra da vereadora. Palavra, porém, não substitui comprovação formal.
A narrativa da perseguição
Brisa insiste que tudo é perseguição política, liderada por adversários de direita. Pode ser verdade que o pedido de cassação tenha motivações políticas, é assim que a política funciona.
Mas a perseguição, por si só, não elimina a necessidade de explicação. Aliás, quanto mais politizado o processo, maior a obrigação de oferecer respostas robustas, documentadas e incontestáveis.
O silêncio que pesa
Brisa fala muito em defesa da cultura e contra o silenciamento da oposição. Mas, no caso do Rolé Vermelho, o que mais pesa não é o grito dos adversários. É o silêncio sobre pontos essenciais.
Quem escolheu o evento? Qual é o limite entre cultura e ato político? O gasto foi promoção pessoal? O dinheiro já voltou ao erário?
Enquanto essas perguntas ficarem sem resposta, a defesa da vereadora estará sempre incompleta. E quando se trata de dinheiro público, cada silêncio soa mais alto do que qualquer discurso.
Quando a régua muda conforme o alvo
O caso Brisa tomou a Câmara de Natal em ritmo acelerado. Em menos de 24 horas, o pedido de cassação estava no plenário. Mas um olhar para trás mostra que o uso de emendas parlamentares em festas privadas ou de interesse pessoal não é novidade em Natal.
Em 2022, o vereador Luciano Nascimento (PSD) destinou R$ 20 mil da Funcarte para bancar o show de Giannini Alencar em seu próprio “Aniversário Solidário”. A despesa foi classificada como “apoio a festas tradicionais”, publicada no Diário Oficial.
Em 2024, a então vereadora Nina Souza (União), hoje secretária municipal de Assistência Social e esposa do prefeito Paulinho Freire, destinou R$ 25 mil em emenda para a própria secretaria que comanda. O dinheiro financiou uma festa fechada de São João da Semtas, em um restaurante na Via Costeira.
Ambos os casos estão documentados em Diário Oficial. E em nenhum deles houve pedido de cassação, comissão processante ou alvoroço político semelhante.
Dois pesos, duas medidas?
Se o problema é o uso de emenda para financiar eventos questionáveis, por que apenas Brisa enfrenta processo de cassação?
Essa é a pergunta que a Câmara de Natal também precisa responder. Porque quando a régua muda conforme o alvo, não estamos diante de um debate sobre legalidade, mas de um campo de guerra política.
Entre no grupo do Blog do Dina e receba tudo antes de sair no site.



