NOTA DO EDITOR: AS REPORTAGENS QUE DARÃO INICÍO A ESSA SÉRIA ESTÃO BASEADAS EM INVESTIGAÇÕES DA POLÍCIA CIVIL, MINISTÉRIO PÚBLICO E SEFAZ. TODAS AS PESSOAS AQUI E NAS PRÓXIMAS MATÉRIAS SERÃO TRATADAS COMO ALVOS DA OPERAÇÃO PORQUE NEM MESMO OS NOMES DOS INVESTIGADOS APARECEM AINDA FORMALMENTE NO DOCUMENTO QUE AUTORIZOU A OPERAÇÃO AMICIS. O BLOG, COMO SEMPRE, TENTA AO MESMO TEMPO BUSCAR A VERSÃO DAS DEFESAS DOS NOMES CITADOS.
O que você vai ler:
O Morador de Felipe Camarão e o Caminhão de R$ 350 Mil

Na manhã de uma terça-feira qualquer, Marco, nome que vamos usar para proteger a identidade de alguém que ainda aparece como vítima no esquema, acordou em sua casa na comunidade Felipe Camarão, zona oeste de Natal, sem saber que seu nome constava como proprietário de um caminhão Mercedes Benz avaliado em mais de 350 mil reais. Nos documentos oficiais da Operação Amicis, processo número 0801279-17.2025.8.20.5001 que tramita na 11ª Vara Criminal da Comarca de Natal, ele aparece como dono da empresa GOMES E COSTA LOCAÇÕES LTDA, responsável por movimentar 168.208,31 reais em favor de terceiros que ele provavelmente nunca conheceu.
O CPF de Marco estava vinculado a operações financeiras que incluíam transferências para Marcelo Spyrides Cunha, para a empresa SPY COMERCIAL EIRELI e para um certo Fernando Ferreira. O endereço da empresa foi alterado para um local onde, segundo a investigação policial, ela nunca funcionou. Marco integra uma lista de pessoas que a Polícia Civil do Rio Grande do Norte classificou como “laranjas” – indivíduos utilizados para dar aparência de legalidade a operações suspeitas.
A poucos quilômetros dali, Francisco Junior da Silva vivia uma situação semelhante, porém com uma peculiaridade que chama atenção nos autos: ele havia sido preso anteriormente por roubo de baterias de torres de telefonia em Macaíba. Agora, segundo os documentos oficiais, Francisco Junior era proprietário da FJS CONSTRUÇÕES LTDA e dono de uma frota de quatro caminhões avaliados em 1.616.000 reais. Em 2023, sete cheques totalizando 84.940 reais foram emitidos em nome de sua empresa para Marcelo Spyrides Cunha e SPY COMERCIAL.
A empresa de Francisco Junior tem uma história particular. Até 27 de agosto de 2023, ela pertencia a Victor Hugo Gomes e Souza, conhecido como Victor Noronha. A transferência para Francisco Junior ocorreu menos de um mês antes das movimentações financeiras suspeitas. Victor Hugo não é uma pessoa qualquer: os documentos mostram que ele é diretor do América Futebol Clube, policial militar, diretor de Marketing do CREA-RN e ex-secretário de Infraestrutura do Estado do Rio Grande do Norte. Atualmente, trabalha na Secretaria de Infraestrutura.
A Casa dos 596 Cheques

Quando os policiais chegaram à residência de Marcelo Spyrides Cunha, encontraram 596 folhas de cheques. O número exato consta dos autos: quinhentos e noventa e seis. Entre eles, o cheque número 900001 da GOMES E COSTA LOCAÇÕES, em branco e rasurado; o cheque número 900018 destinado à SPY COMERCIAL, datado de janeiro de 2025; e sete cheques da FJS CONSTRUÇÕES que somavam os 84.940 reais transferidos para Marcelo e sua empresa.
Marcelo Spyrides é descrito nos documentos como operador financeiro da organização. Sua função, segundo a investigação, era transformar recursos através de um sistema que envolvia a empresa J B FACTORING. O mecanismo funcionava da seguinte forma: empresas de fachada emitiam cheques, a J B FACTORING “comprava” esses cheques devolvidos, a SPY COMERCIAL recebia os recursos, e tudo era justificado como “venda de franquias”.
A investigação identificou uma estrutura hierárquica dividida em cinco núcleos. No topo, o “Núcleo dos Líderes”, composto por João Eduardo Costa de Souza, Marcelo Spyrides Cunha e Layana Soares da Costa. João Eduardo e Layana formam um casal e são proprietários de franquias SCHALK no Shopping 10, no bairro do Alecrim, e no Shopping Cidade Jardim. Eles também controlam as empresas J E CONFECÇÕES LTDA, F M CONFECÇÕES LTDA e J&D LOCAÇÕES DE AUTOMÓVEIS LTDA.
A Evolução dos Perfis
Os documentos revelam uma mudança estratégica na seleção das pessoas utilizadas como “laranjas”. Inicialmente, a organização recrutava pessoas de baixa instrução, moradores de cidades pequenas do interior como Bom Jesus e Macaíba, e residentes de comunidades carentes da capital, como Felipe Camarão e Potengi. Eram indivíduos em situação de vulnerabilidade financeira e social.
Com o tempo, o perfil mudou. A organização passou a buscar jovens de boa aparência, moradores de bairros de classe média e alta, com boa instrução. O foco se voltou para influenciadores digitais nas redes sociais, pessoas com perfil de ostentação de bens de alto valor. A mudança está documentada nos autos como uma evolução tática da organização.
Algumas pessoas descobriram por acaso que eram proprietárias de empresas. Carlos Alberto da Trindade soube que sua empresa, ATHENAS REFEIÇÕES COLETIVAS, havia sofrido alterações contratuais que ele jamais autorizou. Francisco Adriano Messias descobriu que uma empresa chamada JF LOCAÇÕES DE MÁQUINAS PESADAS havia sido constituída em seu nome sem seu conhecimento. Reinaldo Alves da Silva teve a mesma surpresa com a empresa R ALVES DA SILVA DIAS.
O caso de Alessandro Nicolau de Oliveira é particular. Sua empresa, ANO ESTAMPAS LTDA, estava sendo operada por Layana Soares da Costa, que se identificava como proprietária em contatos com bancos. Alessandro não sabia que sua empresa estava sendo utilizada por terceiros.
Os Veículos que Viajaram o País

Um caminhão Mercedes 4144K AXOR percorreu um caminho peculiar pelo território nacional. Financiado no Rio Grande do Norte, foi posteriormente registrado no DETRAN do Pará. Sua placa foi alterada para RIV-5A55, e os documentos mostram que ele circulou por São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Outro caminhão Mercedes-Benz, com placa RWQ8J35, registrado em nome de Viviane Galvão de Araújo, seguiu rota semelhante pelos mesmos estados.
A investigação aponta para um método específico: os veículos eram financiados, retirados normalmente das concessionárias, e depois os pagamentos cessavam. Em seguida, havia alteração dos sinais identificadores e novo registro em outros estados, permitindo que circulassem livremente com documentação aparentemente regular.
A Rede de Colaboradores
Victor Hugo Gomes e Souza foi classificado no “Núcleo Amigo Colaborador”, junto com sua irmã, Ana Patricia Gomes e Souza, e Saulo Barbosa Catão Segundo. Ana Patricia operava a empresa HEYDMANN E SOUZA ARTIGOS DESCARTÁVEIS, que posteriormente foi transferida para Alessandro Nicolau, descrito nos autos como “interposto de João Eduardo”.
O “Núcleo Operacional” incluía dois contadores: José Ildo Pereira Leonardo e Dornélio Cristóvão Silva do Nascimento. José Ildo é descrito como responsável por alterações contratuais fraudulentas e abertura de empresas de fachada. Dornélio teria alterado em 2022 o contrato social da ATHENAS REFEIÇÕES COLETIVAS utilizando a assinatura falsificada de Francisco Joel Sobrinho, morto em 2019.
A Polícia Civil realizou mandados de busca e apreensão em diversos locais vinculados a Victor Hugo: sua residência na Rua Desembargador José Gomes da Costa, em Capim Macio; a sede do América FC, na Avenida Rodrigues Alves, no Tirol; a sede do CREA-RN, na Avenida Senador Salgado Filho, em Lagoa Nova; e a Secretaria de Infraestrutura, na Rotatória da Governadoria.
O Alcance da Operação
A organização tinha alcance interestadual. Embora baseada no Rio Grande do Norte, suas ramificações se estendiam ao Pará, onde veículos eram registrados; a São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, onde circulavam. Os documentos mostram uma operação sofisticada que explorava brechas no sistema de registro veicular entre diferentes estados.
Os crimes investigados incluem organização criminosa, conforme a Lei 12.850/2013; lavagem de dinheiro, segundo a Lei 9.613/1998; estelionatos; fraudes documentais; falsidade ideológica; e adulteração de sinal identificador veicular.
Nos autos de mais de duas mil páginas, a Operação Amicis desenha o retrato de uma organização que soube adaptar seus métodos e perfis de recrutamento, mantendo uma estrutura hierárquica clara e operações que se estendiam por múltiplos estados. Marco, em sua casa na comunidade Felipe Camarão, permanece como proprietário oficial de um patrimônio que provavelmente nunca viu, parte de um esquema que transformou pessoas vulneráveis em peças de um tabuleiro financeiro que elas desconheciam estar jogando.
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O Que Vem Por Aí
Esta é apenas a primeira de uma série de reportagens sobre a Operação Amicis. Nos próximos posts, vamos detalhar:
•Como funcionava exatamente o esquema de lavagem de dinheiro
•As empresas de fachada e como eram criadas
•A conexão com as franquias SCHALK
•O impacto nas vítimas utilizadas como “laranjas”
•Os desdobramentos da investigação
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