Em São Miguel, a motivação para os desvios de recursos da saúde descobertos na Operação Mederi, teria uma justificação financeira pessoal: a manutenção do padrão de vida do gestor municipal. Diálogos intercetados pela Polícia Federal citam que o esquema servia para “recompor” os ganhos do Prefeito Leandro Michel do Rego Lima. Segundo a investigação, o chefe de gabinete e irmão do prefeito, Lincoln Micaele, teria afirmado que o gestor ganhava cerca de “cem mil reais” como médico antes de assumir o cargo, e que o salário atual não seria suficiente.
O esquema descrito na decisão judicial era coordenado por Lincoln, apontado como a autoridade central que orientava a manipulação das licitações. Numa das conversas gravadas, um operador do esquema relata que recebeu ordens expressas de Lincoln para baixar o preço unitário dos produtos e aumentar a quantidade, uma manobra para evitar suspeitas dos órgãos de controlo: “aumente o quantitativo pra que o preço diminua”, teria ordenado o chefe de gabinete.
Além da manipulação direta, a organização utilizava uma “Organização Social” (OS) como intermediária para branquear os desvios. Os áudios revelam que a OS ficaria com 5% de “tudo que girar”, enquanto outros 10% seriam destinados ao operador do esquema. A estratégia incluía realizar os primeiros pagamentos através da OS e, posteriormente, utilizar “caronas” em atas de registo de preços para continuar os fornecimentos.
A decisão judicial destaca que a participação do Prefeito Leandro não se limitava a ser o beneficiário financeiro. Ele é citado como participante de reuniões com os operadores do esquema para definir os detalhes das contratações, o que, para a PF, indica o seu conhecimento e coordenação direta das irregularidades para assegurar a compensação da sua perda salarial.
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