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A defesa de Wendel Lagartixa entrou em contato após a publicação desta matéria, e ela foi complementada com mais informações
Em 8 de agosto de 2021, três homens foram autores de um atentado que deixou uma garota de 4 anos morta. Era o Dia dos Pais. Nos dias seguintes, o sobrevivente daquele evento, e pai da garota, Wendel Fagner Cortez de Almeida, conhecido como Wendel Lagartixa, ocupou espaços na mídia indicando os nomes dos autores do atentado e invocando termos como “justiça”, “família”, “Deus”, “ausência do estado” e “fragilidade das leis”.
Catapultava-se ali uma trajetória que se iniciara lá atrás, qual seja: a de capturar o coração dos conservadores que se sentiam esgotados com o estado falido, enquanto se expandia o controle territorial de áreas tomadas pela facção Sindicato do Crime do RN, mais conhecida por Sindicato do RN. Criava-se, com a projeção midiática e em definitivo, a figura de um herói justiceiro, baseado em uma narrativa da qual Wendel detinha o domínio, pois ele quem a contava por suas redes. Enquanto isso, a outra parte da narrativa era mantida oculta.
Até agora.
Nos últimos meses, o Blog do Dina mergulhou numa série de documentos, depoimentos, vídeos e áudios capturados ou partes de investigações do Ministério Público do RN, Polícia Federal e Polícia Civil, e que narram a dinâmica de como o crime organizado se redesenhou no Rio Grande do Norte.
A história que emerge é que acabou a velha cantiga de briga de facções, pois o PCC se desmobilizou do estado, que passou a ser disputado pelo Sindicato do RN e por milícias privadas. Dessa dinâmica, Wendel Lagartixa é uma das figuras mais proeminentes.
Esta é a primeira de uma série de reportagens que busca iluminar para a sociedade do Rio Grande do Norte como o crime organizado se redefiniu e se infiltrou entre nós, sempre conforme as investigações a que tivemos acesso.
Por Que Wendel Lagartixa?
Mensagens distribuídas entre membros do Sindicato do RN deixam claro porque Wendell Lagartixa é um alvo para a facção. Para o primeiro grupo de facção que se organizou no estado, o policial militar reformado tomou uma frente de guerra que ameaça o monopólio da facção.
Pela dinâmica narrada, as milícias ocupam espaço e todas as atividades pertencentes às facções, sobretudo o tráfico de drogas, de duas formas. Um braço são agentes desligados do estado, onde se encaixa, para esse facção, pessoas como Wendel. Outro braço seria composto por policiais que se corromperam e cometem crimes usando até viaturas. Essa dinâmica está sob investigação e claramente desenhada em áudio interceptado de membro do Sindicato do RN. Ouça:
Quem acompanha de perto o uso do estado constituído para o cometimento de crimes é o Ministério Público do Rio Grande e a Polícia Civil. Ao Blog do Dina, o MPRN afirmou que “em parceria com polícias investigativas, já atuou em várias investigações e ações penais para responsabilizar integrantes de grupos de extermínio no Estado”. O órgão ainda destaca que “as milícias são organizações criminosas que atuam para que o cidadão se torne refém de seus integrantes, de modo que a contribuição daqueles que formam o corpo social de uma determinada localidade atingida pela atuação da milícia se mostra especialmente importante para os órgãos de combate às organizações criminosas”.
A Escalada da Violência
Para a Polícia Civil do Rio Grande do Norte há uma relação direta entre o assassinato da filha de Wendel e a disputa prévia entre os grupos de extermínio contra a facção criminosa. Nessa escalada, a participação de policiais é mapeada como decisiva para o incremento dos homicídios, concentrados na Zona Norte de Natal, e que aumentaram em 33%.
Todos os casos de homicídios obedecem a uma dinâmica clássica dessa guerra, conforme documentos de inteligência obtidos pelo Blog do Dina, que narram: “Os dados sugerem uma possível correlação entre os dois eventos, o que sugere a possibilidade de atuação de facções rivais e/ou de milícias privadas. A plausibilidade da hipótese é sustentada pela casuística que envolve a temática das facções criminosas e o histórico de atuação de milícias armadas.
As Duas Guerras

Alvo do Sindicato do RN por um lado, Wendel também travava outra guerra, por outro: a política. Com maestria, ele se filiou ao PL, partido do ex-presidente Bolsonaro, e capturou a direita conservadora sedenta por justiçamento ao construir um discurso amplificado pela mídia. As entrevistas nos diversos canais de comunicação sempre tocavam as temáticas de “justiça”, “família”, “Deus”, “vida pregressa”, “educação”, “ausência do estado” e “fragilidade de leis”.
Em razão da exposição alcançada pela tragédia familiar, Wendel Lagartixa passou a visitar bairros de Natal e cidades do interior do estado, a fim denunciar a suposta ausência do poder público em obras de manutenção de vias de trânsito, praças e prédios públicos, como também elevar críticas a membros de facções criminosas. A trajetória lhe rendeu expressivo número de seguidores em redes sociais.
Sob o pretexto de contribuir para o fortalecimento da Segurança Pública, Wendel Lagartixa passou a denunciar supostos agentes criminosos nas redes sociais, inclusive citando a localidade de moradia, nome, vulgo, fotografia, a facção de domínio na região, sempre acompanhados do anúncio de que visitaria a cidade. Além disso, passou a incitar provocações contra as facções criminosas, com ênfase nas críticas sobre o Sindicato do Crime do RN. A popularidade levou ao lançamento da candidatura a deputado estadual.
Nenhuma das investigações e prisões das quais Wendel tem sido alvo arrefeceram os ânimos de seus seguidores. Ao contrário. Preso em face da Operação Aqueronte, acusado do envolvimento em um triplo homicídio em abril de 2022, ele foi solto em setembro de mesmo ano e fez campanha eleitoral onde chegou a ser alvo de um atentado que teve um morto. Segundo os investigadores, o homem executado, que fazia parte do grupo algoz de Wendel, era membro do Sindicato do RN. Em meio ao ataque, Wendel, abriu uma live no Instagram.
Nela, “declarou guerra” à facção criminosa SDC (o que ele chama de “decreto”) e ameaçou “ir atrás dos responsáveis”, caso
houvesse omissão por parte dos órgãos oficiais na identificação dos supostos autores. Em diversos trechos da transmissão, o candidato afirma que poderia até “voltar pra cadeia”, mas iria “caçar e matar tudinho” e que iria mostrar “como é que se mata”. As declarações também atribuem responsabilidade pelo crescimento das facções ao governo do estado, um mandato do Partido dos Trabalhadores, e à “esquerda”. Em um dos vídeos, o então candidato faz flexões de braços ao lado do cadáver do oponente.
O resultado disso tudo foi a mais expressiva votação para deputado estadual que o Rio Grande do Norte já teve: 88,2 mil votos.
A Reação do Sindicato do RN
Em reação à eleição de Wendel Lagartixa, o Sindicato do RN fez circular uma mensagem de retaliação. Primeiro, autorizava que seus membros passassem a cometer crimes em regiões próximas às áreas dominadas pela facção. Para o Sindicato era inconcebível que a população elegesse alguém com as credenciais de Wendel. A vingança se daria na forma de violência direta contra a sociedade.

Noutro relatório do Sindicato, também foi comunicado que a aparente paz que existia estava acabando, em face da “covardia da população”.

‘As Acusações De Grupo de Extermínio Nunca Se Provaram’
A defesa de Wendel Lagartixa afirmou ao Blog do Dina que as acusações sobre ele integrar grupo de extermínio nunca se provaram.
“Wendel nunca foi condenado, ou sequer foi provada qualquer participação em grupo de extermínio. Inclusive, em um dos processos, um dos casos de maior repercussão, onde ele transferido para presídio federal, ele foi absolvido”, destacou ao Blog do Dina o advogado João Antonio Cavalcanti.
Ele ainda enfatiza que existem investigações a respeito de grupo de extermínio, mas que seu cliente não integra nenhuma delas. “O próprio processo de triplo homicídio do qual ele é réu, o MP pediu arquivamento anulando a acusação de associação criminosa e o caso foi redistribuído para as varas que tratam de crimes comuns contra a vida”, destacou.
Para Cavalcanti, é ainda compreensível que agentes políticos tenham se afastado de Wendel. “A gente sabe que a política é feita de oportunidades. Wendel preso não se associa bem. Wendel solto é outra coisa. A eleição da filha dele não foi o que se esperava no tocante a votos. Wendel em liberdade tem bastante peso. Teria sido outra coisa”, destacou.
Wendel Lagartixa Atualmente
Atualmente, Wendel Lagartixa está preso na Bahia e inelegível. As lideranças políticas que estiveram com Lagartixa em 2022 relatam distanciamento. Presidente do PL, o senador Rogério Marinho declarou ao Blog do Dina que, quando assumiu a presidência da legenda, Wendel já fazia parte de uma composição que foi gerida pelo deputado federal João Maia. “O que o partido fez foi prestar assistência jurídica para tentar reverter o caso eleitoral dele”, afirmou, se referindo ao imbróglio que impediu Wendel de assumir como deputado estadual.
O deputado federal João Maia não foi localizado para comentar que tipo de apoio prestou a Wendel ao longo dos últimos tempos e também durante a campanha. O secretário-geral do PL, Genildo Pereira, afirmou que não sabe mais se Wendel faz parte dos quadros partidários em razão de essa informação ficar restrita aos diretórios locais. Marinho, no entanto, afirmou que Wendel se desfiliou da legenda.
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