Guia de Súplicas À Polícia Civil, Ou, O Que Você Vai Ler
Gosto quando você desarticula o tráfico. De verdade. É bonito de ver: helicópteros no ar, armas apreendidas, entrevistas coletivas lotadas. O tráfico sim, Polícia, é o mal absoluto. É o inimigo número um da sociedade. Tem fuzil, tem facção, tem sangue. E quando vocês entram no morro, fardados, determinados, com aquele ar de justiça cinematográfica… dá até orgulho. Dá like. Ganha prêmio.
Mas me diga: o que foi que o sonegador lhe fez?
Um sujeito que comete crimes que geram empregos, Polícia, é só um otimista. Um empreendedor de espírito indomável. Um crente no Brasil que tenta, com as armas que tem — geralmente um contador criativo, um CNPJ no nome da sogra e uma nota fiscal opcional — sobreviver à sanha arrecadatória do Estado. Ele não vende droga, não comanda facção, não intimida ninguém com fuzil. No máximo, oculta patrimônio, fraciona faturamento, e contrata informalmente “em nome da liberdade”.
Quando você desmonta esses esquemas de crimes que geram empregos, confesso que sinto um tipo especial de constrangimento: o das pessoas que, forçadas a defender seus benfeitores, se veem agarradas a filigranas da legislação para justificar o injustificável. É um balé retórico com passos em falso: “mas ele gerava empregos”, “mas a carga tributária é alta”, “mas a empresa sustentava dezenas de famílias”. Enquanto isso, a cadeia — a produtiva — se desespera, pois a outra, a penal, ameaça receber seus patronos mais ilustres.
Crimes que geram empregos? Uma ironia sobre a seletividade da justiça
Veja bem, Polícia, quando vocês prendem traficantes, a sociedade vibra. Quando prendem quem comete crimes que geram empregos, ela engasga. Há quem chame de injustiça; eu prefiro chamar de seletividade sentimental.
Operações como Sócio de Papel, Fechamento, Filhos de Francisco… são espetáculos de competência, sem dúvida. Mas também nos expõem a um dilema nacional: punir quem burla o sistema ou preservar quem mantém o sistema de pé com alicerces podres?
Peço-lhe, portanto, com a elegância que só a ironia pode vestir: não combata mais os crimes que geram empregos. Deixe esses empreendedores em paz. Eles não ameaçam a democracia — apenas a contabilidade oficial. Não impõem medo — apenas emitem boletos.
No mais, confio que, se o crime organizado soubesse redigir contratos sociais e constituir empresas com capital de R$ 1 mil, talvez também estivesse em liberdade.
Com sarcasmo polido e CPF regularizado,
Um brasileiro que paga imposto e já começa a achar isso um erro grave
Entre no grupo do Blog do Dina e receba tudo antes de sair no site.



