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Home » Drenar a culpa. Alagar a responsabilidade.

Drenar a culpa. Alagar a responsabilidade.

Dinarte Assunção Por Dinarte Assunção
25 de junho de 2025
Tempo de Leitura: 4 mins
Bancada federal
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Vem as chuvas e Natal alaga.
Não é figura de linguagem. É fato. Fato recorrente.

Chove, e a cidade some.
Chove, e o caos reaparece — com água até os joelhos, indignação até o pescoço e, claro, uma enxurrada de notas parlamentares exigindo providências, como no último fim de semana, quando um delírio de alto engajamento começou em Natália Bonavides e se espalhou até atingir Styvenson Valentim, pegando político de tudo que é espectro.

Todos muito preocupados em acusar ou propor soluções para os alagamentos de Natal, como se estivéssemos diante de um fato inédito.


Com a serenidade típica de quem observa do alto da ribanceira, Bonavides acusou a prefeitura de apresentar apenas um projeto de drenagem ao PAC Seleções.

Um projeto. Só um. Logo descobriram que o Governo do Estado podia apresentar três e não rascunhou nenhum, e a parlamentar de algoritmo arrastou para crise o governo de Fátima Bezerra.

O problema — e aqui começa a tragédia — é que a municipalista de story esqueceu de combinar o ataque com sua própria biografia orçamentária.

Quando alguém diz que está chovendo e outro diz que não. O dever do repórter é levantar e ir até a janela verificar. E não apenas dar as duas versões.

Analisamos todas as 902 emendas individuais destinadas às cidades e ao Rio Grande do Norte desde 2020 pela bancada federal potiguar.

Dessas, 149 foram para Natal.
Valor total: mais de R$ 57 milhões.

Sabe quantas foram destinadas para drenagem urbana? Nenhum. Até cheguei a me animar quando vi uma de quase R$ 240 mil de João Maia, mas a drenagem estava apenas no nome era pavimentação para Neópolis.

R$ 240 mil.
O suficiente, talvez, para um bueiro e dois metros de calha.

Já Natália Bonavides, que agora cobra responsabilidade dos outros, destinou quase R$ 20 milhões para Natal. A líder, a que mais destinou.
Para drenagem? Nenhum real.
Zero.

Agora, vamos abrir esse parêntese pedagógico — porque ele é crucial.

Existem dois tipos de emendas individuais:
as com finalidade definida e as chamadas emendas especiais — ou, no jargão mais honesto, emendapix.

A diferença?

➡️ Emenda com finalidade definida é aquela em que o parlamentar diz claramente onde o dinheiro vai parar e para quê.
Quer resolver enchente? Bota lá: drenagem.
É fiscalizável. É técnica. Dá trabalho. E é rara.

➡️ Já a emenda especial (emenda pix) é outra história.
O deputado ou senador só diz pra qual cidade vai o recurso.
Não precisa dizer mais nada.
A prefeitura recebe a grana e decide o uso.
Sem compromisso com objeto. Sem rastro. Sem nome no contrato.

E adivinhe qual modelo os congressistas mais usam?

Dos R$ 386 milhões em emendas analisadas:

  • R$ 285 milhões vieram por emenda pix, com execução de 100%, sem nenhuma prestação de contas pública obrigatória.
  • Já as com finalidade definida, que exigem dizer que é pra drenagem, receberam só R$ 100 milhões — e executaram muito menos da metade.

Os parlamentares escolheram não resolver a enchente.
Escolheram, conscientemente, mandar recursos livres, soltos, para a vitrine.
Porque drenagem não aparece na foto de inauguração.
Porque drenagem não dá voto.

E aí, quando chove, o que escorre pelas ruas de Natal não é só água.
É a memória curta — e a responsabilidade escoada.

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