As imagens da câmera corporal escancararam a brutalidade de uma abordagem policial que terminou com Thawanna da Silva Salmázio morta, no dia 3 de abril, em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo.
O caso expõe de forma cristalina como falhas estruturais na Polícia Militar transformam situações banais em tragédias. E como a corporação protege seus agentes mesmo quando matam civis desarmados.
Como tudo começou: um retrovisor e uma discussão
A sequência é absurda. Uma viatura da PM passava pela Rua Edimundo Audran quando o retrovisor bateu no braço de Luciano dos Santos, marido de Thawanna. O casal estava caminhando de mãos dadas.
Os policiais voltaram. Em vez de se desculparem pelo acidente, começaram uma discussão. A soldado Yasmin Cursino Ferreira, de apenas 21 anos, desceu da viatura e partiu para cima de Thawanna enquanto o colega brigava com Luciano.
Minutos depois, Yasmin atirou na mulher. A justificativa? Thawanna teria “apontado o dedo” no rosto dela e a “agredido”.
30 minutos de agonia no chão
O que aconteceu depois revela o descaso total. Thawanna ficou agonizando no chão por meia hora. Os próprios PMs precisaram cobrar o resgate pelo menos duas vezes.
Nas imagens, o policial parceiro de Yasmin questiona: “Você atirou nela?”. A resposta da soldado: que a vítima tinha batido no rosto dela.
Áudios de câmeras de segurança captaram parte da discussão. Thawanna chegou a dizer: “Com todo respeito, mas você [PM] que bateu em nós, que eu vi”. Era a constatação do óbvio: os policiais tinham causado o acidente.
A inversão perversa do sistema
Aqui mora o escândalo maior. A Polícia Civil abriu inquérito contra Luciano por “resistência”. Ele virou réu. Yasmin, que matou sua companheira, consta como “vítima” no processo.
É a lógica invertida que protege quem mata e criminaliza quem sofre a violência policial. Luciano disse que colaborou com os PMs, tirou a blusa e colocou a bolsa no chão para mostrar que não oferecia perigo. Mesmo assim, levou spray de pimenta.
O padrão que se repete
Este caso não é isolado. É o reflexo de uma corporação que forma agentes para ver conflito onde há apenas cidadãos. Que ensina a sacar arma antes de tentar diálogo.
Yasmin tinha 21 anos. Provavelmente saiu da academia achando que portava a autoridade suprema nas ruas. Que qualquer “desacato” justifica violência extrema.
O resultado: uma mulher morta por “apontar o dedo”. Uma família destruída. Um Estado que mata seus cidadãos e depois os culpa pela própria morte.
As câmeras corporais deveriam servir para fiscalizar a ação policial. Neste caso, elas documentaram um homicídio. Resta saber se a Justiça terá coragem de chamar as coisas pelo nome.
Com informações de Metrópoles.
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