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Home » O vulcão que não perdoa o cansaço: Uma viagem ao chão que traiu Juliana

O vulcão que não perdoa o cansaço: Uma viagem ao chão que traiu Juliana

Giovanna Bellato Por Giovanna Bellato
24 de junho de 2025
Tempo de Leitura: 7 mins
O vulcão que não perdoa o cansaço: Uma viagem ao chão que traiu Juliana
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O que você vai ler:

  • A neblina não esconde só o abismo. Esconde a inclinação. E a inclinação engana.
  • É um solo sem compaixão. E é por isso que quase ninguém se salva quando escorrega.
  • O turismo que esconde o risco
  • Por que contar tudo isso?

A pedido do Blog do Dina, uma inteligência artificial foi acionada para reconstruir, com base em dados topográficos, geológicos e relatos de trilheiros, as condições do solo no Monte Rinjani, na Indonésia, onde a brasileira Juliana Marins caiu de uma altura de 300 metros.
A ideia é simples: permitir que o leitor caminhe com os pés de Juliana, ou melhor, tente caminhar.
Porque naquela parte da montanha, até ficar de pé é um feito.
É difícil imaginar, daqui de baixo, o que é pisar ali.

O Monte Rinjani não tem chão.
Tem armadilhas.

À primeira vista, o terreno parece seco, compacto, como uma trilha comum de areia escura. Mas não é. O que cobre aquelas encostas é um manto instável de cinzas vulcânicas, resultado de erupções antigas e frequentes. Um tipo de solo poroso, solto, feito de grãos finíssimos e pedras do tamanho de moedas, que se acumulam sobre a rocha-mãe sem jamais aderir a ela.

vulcão Rinjani

É como caminhar sobre farinha seca inclinada a 45 graus.
A cada passo, o pé afunda. A cada impulso, escorrega.
E mesmo parado, você sente que está se movendo — porque está.

Esse é o tipo de terreno que os guias locais chamam de “solo que não segura”. E há uma razão para isso: ele parece firme até o momento em que você precisa dele. Quando você tropeça. Quando se desequilibra. Quando pensa que ainda dá tempo de se segurar.

Não dá.

Abaixo desse manto solto, existe o declive real: um paredão irregular de pedra áspera, onde líquenes e musgos criam camadas escorregadias como sabão. Em muitos trechos, o chão não apenas falha — ele sugere um caminho e depois desaparece, como se puxasse o corpo com ele.

O termo técnico para esse tipo de terreno é “material piroclástico solto” — restos da violência de um vulcão que nunca se acomoda por completo. O monte inteiro está em constante deslizamento, como se respirasse devagar, mas sem parar.

E quanto mais alto se sobe, mais traiçoeiro ele fica.
O ar esfria. A umidade sobe. A neblina densa cobre os buracos que os olhos tentam ver.
E a gravidade, silenciosa, começa a chamar.

Em locais assim, o corpo não cai: ele é liberado.

Não há apoio. Não há raízes. Não há grama. Só pequenas pedras que deslizam juntas — e às vezes levam tudo com elas. O terreno não absorve impacto. Não freia quedas.
É uma superfície que aceita o corpo por segundos… e depois o entrega.

Esse é o tipo de solo que recebeu Juliana.

Segundo o guia que a acompanhava, Juliana pediu para parar. Disse que precisava descansar. Ele seguiu na frente. Quando voltou, ela não estava mais ali. É a única versão disponível — e foi com base nela que as buscas começaram.


Ela caiu em um dos trechos mais críticos da trilha: entre o acampamento de Plawangan Sembalun e o cume do vulcão, numa região com visibilidade quase nula e inclinação brutal.

É ali que a trilha se afina, o vento se intensifica, e o corpo precisa negociar cada passo.
Mas não há nada com o que negociar.

A neblina não esconde só o abismo. Esconde a inclinação. E a inclinação engana.


Você pode pensar que está em um trecho plano — até o corpo começar a tombar para a frente sem aviso. A caminhada ali não é linear. É um esforço contínuo de retomar o equilíbrio, de compensar o escorregamento com o quadril, com o bastão, com a respiração. A coluna trava. As panturrilhas queimam. A mente entra em alerta constante.

E o solo não ajuda. Ele absorve o peso, mas não oferece resistência. É como tentar correr numa esteira de cascalho. A cada passo, uma reação diferente: ora você escorrega, ora desliza, ora afunda. Nenhum passo é igual ao anterior. O chão parece em movimento contínuo, como se estivesse tentando se livrar de você.

Há relatos de trilheiros experientes que caíram de joelhos no trajeto. Que tiveram que subir com as mãos no chão, como se escalassem areia. Que jogaram o peso do corpo todo nos bastões de caminhada para não serem puxados montanha abaixo.

E não estamos falando de chuva.

Em dias secos, o vento é o principal cúmplice da queda. Ele sopra lateralmente, forte, vindo da cratera. Leva consigo grãos de areia que batem nos olhos, reduzem a visibilidade, fazem os olhos lacrimejarem e os pés perderem a referência do chão. Um tropeço não acontece porque a pessoa foi imprudente — mas porque o corpo humano não foi feito para lidar com tantos vetores ao mesmo tempo: inclinação, instabilidade, vento, altitude e fadiga.

É um solo sem compaixão. E é por isso que quase ninguém se salva quando escorrega.


Juliana caiu ali. E por mais que soubéssemos de sua experiência, preparo físico e coragem — o corpo humano não foi feito para lutar contra esse tipo de geografia sozinho.

Ela poderia estar atenta. Poderia estar firme. Poderia até ter pisado certo.

O solo não se importa.

O turismo que esconde o risco


O Monte Rinjani é vendido em agências locais como “experiência única”, “trilha para todos os níveis”, “passeio imperdível”. Mas o que se vive ali está mais perto de uma missão de sobrevivência do que de uma aventura turística.

Há falta de fiscalização, ausência de sistemas de resgate eficientes e trilhas com alto grau de letalidade sendo promovidas como “desafios físicos”. Não há placas de alerta em idiomas acessíveis. E, mais grave: não há qualquer garantia de estrutura mínima em caso de acidente.

Quando Juliana caiu, foram drones de turistas que ajudaram a localizar o corpo. Moradores que improvisaram cordas. Socorristas que arriscaram a própria vida — e relataram depois que as equipes não tinham o necessário para operar em um terreno tão severo.

Por que contar tudo isso?


Porque os números não contam a história toda.

Dizer que Juliana caiu 300 metros pode parecer um dado frio. Mas compreender o terreno que ela pisou, o vento que a empurrava, o tipo de solo que falha com quem mais precisa dele — isso transforma o número em vida.

Essa matéria não é só sobre a queda.
É sobre o chão que não segura ninguém.

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